São Francisco lights
Não tinha percebido não, mas as luzes de São Francisco são mais bonitas vistas aqui de Berkeley. E hoje, quando estive por lá, me dei conta que São Francisco e a música de Tracy Chapman são uma coisa só. Andar de Muni, observar as pessoas, passar a tarde no Golden Gate, ir ao Pete’s Coffee na California, pertinho da Filmore, ver a Golden Gate Bridge, tudo sob sol, tudo sob um manto de melancolia que cobre a cidade, é música com certeza. Ver os olhos das pessoas na rua. Quem mora em São Francisco tem um olhar perdido, blasé, de quem não está triste, mas também sabe que a névoa não demora a voltar. De gente que sabe que viver é névoa, é não saber o amanhã, que pode ser carnal, ou espiritual, especial ou espacial. Estar sentado num ônibus nessa cidade é uma experiência e tanto. É ver um cara falando alemão para si próprio. É ser ajudado por uma chinesa que estava lendo Arabian Nights na edição pocket Classics, é ouvir música trance-techno as 3 da tarde reverberando na quadra do Yerva Buena Gardens, de uma festa meio precoce em algum prédio por ali. Estar em São Francisco, é muita coisa ao mesmo tempo. É esbarrar num americano só muito de vez em quando, mas depois se dar conta que são todos americanos. É ir na Haight-Ashbury e se dar conta que aquele universo é também produto. Que tudo o que somos e fazemos não significa muita coisa quando nos deparamos com nossos anseios e questionamentos. É caminhar por ruas e alamedas e se deparar com hippies que nunca deixaram de ser yuppies, e com yuppies que são junkies, e junkies que devem ser os novos hippies. É comer um curry noodle na citrus noodle house e na hora de pagar a conta, descobrir que aquela garota com brinco exótico, que não é nem junkie nem hippie, tem também aquele olhar quase único, perdido, de névoa. É ter um sorriso tranquilo e as pessoas virem te perguntar se o dia está bonito. É se aperceber que as coisas mais banais, fúteis, simples, podem ser o que estava faltando para todos nós. É sorrir porque a loja de café pergunta o nome do cliente junto com a compra, e em um minutinho o cara tira o latte, e te chama pelo nome, como se você fosse um velho conhecido. É ver gente com camisa do Che Guevara, e gente que não penteia o cabelo, e gente que quer a revolução, mas que paga alugel de mais de mil dólares por mês. É estar num fast car. Sentir a vida ir passando: I want a ticket to anywhere, Maybe we can make a deal, Maybe we can get somewhere. É ter vontade de gritar que por um instante tudo pareceu ter sentido, olhando as ondas se embrulharem com as pedras, e pessoas correndo, e bicicletas indo e vindo, e todos de um jeito, meio peculiar, meio diferentes. É ver que mesmo ali, segurar a mão de alguém é segurança, seja você junkie, yuppie, simpatizante ou gay, e o alguém, as vezes você nem sabe quem é direito. É finalmente se dar conta, por um momento que seja, que starting from zero got nothing to lose, but me myself got nothing to prove. É ter a tranquilidade de saber que ali, você é de fora, é visitante, só observa, só respira, só fica a espreita. Que por aqueles momentos, você Just ‘crossed the border and into the city, You and I can both get jobs And finally see what it means to be living. Que aquelas tábuas brancas que fazem parte dos apartamentos de época, que são o coração da cidade, e são periodicamente trocadas te dizem que na história as vezes nada fica, mas que viver pode ser simples. Muito simples. E muito gostoso.

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