E SIM, MERECEMOS SIM

O César, o Daniel, o Fernando, o Guilherme, a Patrícia, o Maurício, e tantos outros não podem ser responsabilizados por nascerem no Brasil. São pessoas de talento extremo, que eu garanto, morem aonde forem morar (e a maioria volta em definitivo para o Brasil), irão contribuir em muito para a sociedade brasileira… Imaginem que um destes indivíduos abra o caminho para Harvard (como foi o caso). Em dois anos, a universidade começou a oferecer bolsas para brasileiros, e aposto que em mais um ou dois teremos pesquisas acadêmicas de uma das maiores faculdades de econômia do mundo, voltadas ao Brasil, iniciadas por um destes indivíduos… A expansão do conhecimento nunca traz danos a um país. Ou será que o exemplo destes jovens não é algo que dá motivação aos outros? Muitos deles irão retornar, e ensinar no sistema universitário brasileiro, um dos maiores do mundo. Irão trabalhar em projetos de pesquisa que mantém os poços de petróleo funcionando (perguntem no CENPES), que estudam vermicidas e fungicidas biodegradáveis e baratos (perguntem na UNICAMP), que realizam estudo da memória brasileira através dos livros do Guimarães Rosa (na UFPE), que estudam as consquências de determinadas leis na constituição brasileira, e como elas contribuem historicamente para a desigualdade (na USP), e assim por diante.

Querem outro dado alarmante? A vasta maioria dos brasileiros que encontrei fazendo doutorado aqui são de famílias que nunca tiveram um doutor. Em vários casos, somente um dos pais possui educação universitária. E vocês ousam me dizer que isso não esta promovendo igualdade e consciência? Quando o Brasil decidir eliminar o programa de doutoramento no exterior, podem escrever aí isso vai acontecer, a taxa de consciência brasileira sofrerá um grande baque. Estudar fora, conviver numa sociedade onde as coisas funcionam, não serve só para fazer você se sentir privilegiado ou não é só um mecanismo para excluir pobres. Serve e muito para abrir os horizontes do indivíduo, para desenvolver uma percepção de que idéias podem concretamente tornar um país, um grande país. Serve para aprender como organizar uma universidade, como formar empresas de sucesso e como deve ser um sistema político igualitário. Ler é uma coisa, vivenciar é outra completamente diferente. Querem mais outra? A maioria destes alunos volta com um amor danado pelo Brasil, mas cientes do quanto falta para o nosso país resgatar sua posição de uma das maiores economias do mundo. Estes mesmos alunos, em geral, entendem como organizar o sistema universitário de forma produtiva (vejam o Eduardo na eletrônica do fundão), e boa parte deles se envolvem em projetos sociais. E que conhecimento trazem aí? Contatos. E muitos contatos.

Então, por um minuto, vale pensar. Destruir uma mente sadia e criativa é um dos maiores crimes que uma sociedade pode cometer. Para maioria destas pessoas, estudar fora não foi só opção, foi necessidade. O sistema brasileiro não estava dando conta da sua sede. Nada de mal nisso. Quando as bolsas do CNPQ acabarem, ao invés de caminharmos para ser uma França, estaremos num caminho sem volta para o retorno ao tribalismo…

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