SONHOS DE INFÂNCIA

Só peço uma coisa. Por favor, me deixem ser criança. Me deixem imaginar aquelas besteiras que eu imagino, e imaginava quando era mais novo. Quais? São tantas. Algumas são bem materiais, como ter toda a coleção de alguma coisa, ou comprar o Pegasus ou o Maximus. Outras um pouco menos terrenas. Como ir a Marte ou ser bombeiro-astronauta. Outras mais babacas. Como acreditar que você só fala com uma garota por amor, que na verdade não se deve usar as pessoas, mesmo quando elas te usam, porque sei lá, as pessoas são legais. Outras espirituais. Como, saber que um dia você vai visitar todos os templos da Índia num só ano. E outras, um pouco mais megalomaniacas. Como querer um doutorado em aviação ultrasônica da melhor universidade do planeta. E ainda outras, simples, inexplicáveis. Como imaginar que se tem a certeza que todo domingo de tarde, você vai poder comer pão de queijo com coca-cola, assistindo Fantástico, discutindo com sua irmã, e conversando com seus pais na sala. E mais outras de coração de menino. Como pensar que todos seus amigos são as pessoas mais especiais e confiáveis do planeta, e que um dia irão todos juntos consturir o tal avião ultrasônico para ir a Marte, varando noites incontáveis, assitindo vídeos e comendo pipoca nos intervalos. Isso num futuro bem próximo.

Sonhos na maioria das vezes são só isso. Sonhos. Até dreno de energia. Mas sei lá. Nos meus sonhos, o mundo é meu mundo. E se vale um sorriso, esse o meu, acho que meu mundo já me vale a pena. Quando se deixam os sonhos, porque são coisa de criança, para viver num mundo de adultos, se deixa também uma parte integral de quem se é. É como cortar a nossa união com o universo, para viver do ego do agora. O agora existe. O sonho também. Viver não é só respirar. Ou melhor é so isso. E mais nada. E se for mais alguma coisa, então é sonho. O resto, o resto é resto. Quem liga para o resto?

Engraçado. Parando para pensar meio segundo, todos temos sonhos. E fomos todos capazes de acreditar nas coisas. Nas pessoas. No universo. Nos sorrisos. Nas palavras. Nos olhos. Em amor. E agora? Agora pedem a morte dos sonhos, eles e meus demônios, porque não há confirmação experimental destas crenças. Mas porque cobrar dos sonhos o sonho e o crer das crenças? Deixem elas serem elas. Só isso… Me deixem ser criança.

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