ROMÁRIO DO DISCURSO

Sem julgar o mérito do que ele diz, Bill Clinton continua sendo um dos melhores no exercicio do parlatório.  Ao contrário de Bush, Kerry, Gore, Lula, Serra, FHC, e tantos outros, é difícil não se divertir vendo este ex-presidente discursar ou palestrar. Seja na apresentação do seu livro, seja criticando a administração republicana e dando apoio a candidatura democrata, ou até mesmo elogiando sua esposa, remendando mancadas passadas…

Acho que o grande mérito de Bill Clinton, além de sua cultura relativamente ampla, é o faro para traduzir o pensamento coletivo em palavras. Ao invés de impor suas idéias, como Romário, ele transforma bolas perdidas na área, em lances de gol. É ou não é lance de gênio se colocar como beneficiário dos cortes dos impostos do Bush, para criticar estes mesmos cortes? Imediatamente o locutor deixa de ser “o ranzinza que odeia o simples e amigável Bush”, e passa a ser o “cínico que se beneficia do Bush”…

Pena que a arte de dar discursos esteja sendo destruída pelo excesso de marketing político, ou de estrategistas, que medem cada palavra de acordo com a resposta da última pesquisa eleitoral. O problema disto é que nunca pode se tomar uma posição pois é muito mais fácil medir a perda dos eleitores “inhame” (aqueles que nunca tem opinião/posição), do que o ganho de eleitores decisivos e emotivos… Chegar ao coração de alguém através de um discurso requer mais do que preparo e marketing, requer um toque de simplicidade e inteligência, quase como aqueles gols do Romário, que parecem que poderiam ter sido feitos por qualquer um jogando uma pelada…  E o risco, é perder o momento do toque, perder o gol, e perder o jogo. Mas aí, é do campeonato. Nem mesmo o Parreira conseguiu ganhar uma copa só na base da retranca…

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