SER É SÓ SER

Quando estou viajando por aqui, diariamente tiro várias horas para estar sozinho. Sozinho, longe de meus parentes, familiares, conhecidos, vizinhos e toda outra coleção de pessoas que parece me conhecer 15 anos atrás. Muitas vezes estamos com muitas pessoas, mas estamos sozinhos. Quando por exemplo, falsificamos quem somos para nos adequar as expectativas da sociedade, dos outros, da família, amigos, vizinhos. Outras vezes estamos sozinhos, solitários, mas nunca a sós. Estar solitário é a sensação de estar desconectado com o mundo, de sentir um grande abismo a separar quem, o que, o quanto somos de todo o resto. Estamos solitários quando a solidão toma conta do coração, como uma pequena tristeza, e depois um câncer, que vai contaminado todo e qualquer semblante de alegria, todo e qualquer olhar de fé e confiança que podemos vir a ter no universo.

Quando estou sozinho é muito diferente. Ao menos por enquanto. Meu olhar atravessa a poeira da rua para ver as pessoas. Para ver pedras talhadas onde encontro um sentido que não me parece algo que aprendi, mas parece ser algo que descobri sozinho. Quanto mais estou sozinho, menos me sinto diferente. Menos me sinto igual também. Simplesmente me sinto parte, como se este eu que aqui escreve, que as vezes pensa, outras vezes sente, outras vezes ri, e ainda outras vezes lamenta, como se este eu desaparecesse, este eu fosse só uma necessidade mundana. Nestes momentos nunca penso estar sozinho, nunca penso em solidão, em sentimentos, simplesmente me sinto como um pedaço inexorável de tudo.

E assim também cada vez que tenho que pedir a benção dos mais velhos na minha família. Quando me abaixo e vejos seus pés, e pelo meu coração passa a grandiosidade da vida, a mostra nos pés, cansados, reluzentes, a mostra. Me sinto alegre, quando toco nos pés das pessoas, porque eu aprendi, acho que refletindo, que nunca podemos ser maior ou menor que ninguém. É muito melhor ser parte de todo mundo. O tempo todo ser parte de tudo.

Eu aprendi na praia, em templos, em casa, na companhia de outras pessoas, e na maioria das vezes sozinho, o que é amor, paixão, tesão, prazer, e êxtase. Amor é o que me invade quando me sinto parte de tudo. Ele oblitera as castas do mundo, as classes sociais, os meus próprios rancores e raivas. É como se tudo fosse comigo, como se todos a minha volta tivessem um pedaço de mim.

Quando sinto amor, e sinto ele sozinho mais vezes do que acompanhado, sinto vontade de venrar os varredores de rua, de abraçar minha avó, de olhar um corvo nos olhos, de sentar a sombra de uma árvore, de principalmente, mergulhar tão fundo no sentimento que desapareço. E de repente, uma paz toma conta de mim por inteiro. Um silêncio sepulcral, e por vez ou outra, nos pequenos instantes de silêncio, sinto como se nunca tivesse sido alguém, algo, alguma coisa, mas que para sempre eu fui o silêncio.

Quando sinto paixão, e sinto muita paixão, o tempo todo, como as pessoas que tem o (des)prazer de conviver com meus sentimentos, é um pouco diferente. A paixão é prazer de momento, que se intensifica a cada separação. Sinto paixão por música. Me sinto apaixonado pela beleza. A paixão depende do mundo. Depende de minha relação com o que está fora, mesmo que eu suspeite que nada do que existe fora pode existir sem a condescendência do meu pensamento. Me sinto apaixonado por pessoas, pelos meus sonhos, pelos meus desejos. E sinto outra forma de paixão também. Uma que é uma explosão, que me faz querer dançar, pular, ficar louco sem medo de ser visto, porque a paixão é tão forte. É a paixão, atração que sinto cada vez que vejo Shiva num templo, que vejo e conheço uma pessoa interessante, que sinto pela praia de Ipanema e por um sorvete gelado depois de uma tarde quente. E a paixão, ela queima, arde, marca, e aos poucos vira amor. O amor perdura, a paixão passa.

Prazer e tesão são duas palavras para mesma coisa. Sempre que sentimos prazer, ele vem do fluir da vibração sexual no nosso organismo. E o prazer nem sempre precisa vir de estar num momento sexual. Quando esquecemos a nossa repressão social, o prazer flui naturalmente por todos os momentos. A energia flui pelo organismo, quando tocamos uma pedra molhada por um rio, quando estamos na presença de um sorriso cativante, quando vemos uma dança carregada de cores e sons, quando ouvimos um canto sagrado em algum canto da rua, quando esbarramos em alguém, e em tantos outros momentos… Prazer é simplesmente estar totalmente no momento sem medo dos sentimentos. Prazer é o que a sociedade condena a ser somente o ato sexual, ou a essência dos sentindos: olfato, audição, tato, visão e paladar. Na minha pequena experiência, existe algo, algum prazer além disso, muito além disso… Um momento de estalo pode induzir prazer, um pequeno êxtase. Meditar pode induzir prazer, êxtase e silêncio. O silêncio é o que vêm depois do prazer, e a permanência de sentir prazer… Mas o prazer tem muitas outras formas, tamanhos e gostos, e muitas das vezes as normas sociais nos impedem de senti-lo, de vibrar com sua energia. Quantos de nós abandonamos atividades prazeirosas, como andar cantando, ou comer uma fruta com a mão, por simples regras sociais?

A necessidade de estar com alguém é muito mais fruto de consciência social, do que um pedido da alma. Somos condicionados desde sempre a imaginar a felicidade num casal, numa família, no estar junto. Só que nunca conseguimos fugir daquilo que realmente queremos: prazer, amor, paixão. E quando esta exigente tríade se aplica num relacionamento, muitas vezes, assim como a dança de shiva, ele destrói a relação. Porque a expectativa de que uma relação externa, uma alguém de fora, nos satisfaça profundamente é grande. Mas, nunca nada externo pode alimentar a alma. O que sinto quando estou sozinho é que não existem limites entre mim e o universo. Não reconheço meu corpo como sendo meu, mas sim mais uma parte deste todo. É tudo muito vago, mas acho que um dia descubro a razão. Só sei por enquanto que estas descobertas são muito prazeirosas…

Não quero dizer com isso, que devemos querer estar sozinhos, e condenar a existência a solidão social. Muito pelo contrário. Quero dizer que só quando conhecemos quem somos de verdade, o que somos no fundo, que somos auto-suficientes ao extremo, podemos estar numa relação sadia. Eu receio, e muitas vezes me sinto feliz, de pressentir que a verdade é que todos somos uma coisa só, este êxtase silencioso que podemos descobrir em pequenos momentos da vida. Que é possível amar qualquer um, estar com qualquer coisa, ser qualquer lugar. Nestes meus momentos de pequeno êxtase me sinto amante de mendigos, mãe de beatos, pai de corvos, e criador de montanhas. É tudo muito esquisito, mas muito natural. Muito natural e prazeiroso.

Na minha experiência todas formas de repressão sempre foram impostas pela sociedade e seus grupos. Sejam eles grupos religiosos que pregam que acender chamas a pedaços de pedra e madeira em rituais elaborados conduzem a alguma verdade, sejam a grupos sociais que inflitram a sociedade com seus ditados, regras, e pedaços inconsistentes de conhecimento. Hoje eu tenho muito mais medo de perder o que sou no meio de todas certitudes que o mundo mostra na sala de aula, na televisão, em discussões e palavras, do que ser um ninguém alguém. Ser nada é ser tudo. Acho que isso que o Fernando Pessoa quis dizer. Quando somos nada, quando descobrimos o tudo que está em nada, descobrimos o universo como sendo nosso. E nós como sendo o universo. E neste momento, passamos de consequência a causa. A energia vital que move tudo. As lágrimas que formam riachos nas montanhas, como Ganga, as pedras que formam lingams, como Shiva em Arunachalam, as luzes que preenchem a noite de estrelas… E acho que nesse momento descobrimos também que em tudo o que é vivo, inclusive em cada pessoa que esbarro no metrô, ou sinto desprezo, ódio, amor, amizade, está esta mesma energia vital, este mesmo universo.

Portanto eu pergunto, será que estar só é estar sozinho? E que estar sozinho é estar separado? E estar separado é tão errado? E como de momento, de coração eu respondo, que tudo o que descobri e senti, graças a vida, graças a todos que conheci por esta pequena existência, tudo só veio a me alimentar quando sozinho pude ver o lugar de cada coisa, de cada detalhe, a grandiosidade de tudo que é a minha vida e a vida de todos.

PS: Não sei direito o que escrevi, porque escrevi o que sinto. Mas somos sempre contraditórios não? Sim, quando pensamos com a nossa mente… Acho que é bem por aí. Porque ser consistente? É muito melhor ser veradeiro, e inteligente. OU seja questionar o tempo todo, e tentar encontrar respostas. O que para mim, na maioria das vezes, é um processo tortuoso, doloroso, e porque não, solitário.

2 Responses to “SER É SÓ SER”

  1. Geraldine Rosso Says:

    Sincero esse seu texto. Tomarei a liberdade de enviá-lo a um amigo.
    Geraldine

  2. concy maduro Says:

    Profundo,bonito,mas a sua opçao é se isolar e viver so.

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