Assisti ao debate Kerry vs. Bush, numa sala do partido comunista de Nova Iorque. Apesar disto, a maioria dos presentes se comportou muito bem, rindo sem parar das respostas dos candidatos. Seguem algumas de minhas observações sobre a performance dos candidatos, e a razão de porque no fim este debate foi quase em vão:
*Qualquer pessoa pode perceber através do debate que Bush não é muito articulado. Toda vez que teve que responder inesperadamente, seguiram-se vários segundos de pausa, e em geral, uma repetição monótona de sua “linha de chamada”: Kerry envia sinais confusos, é um flip-flop.
*Em termos de “flip-flop”agem, Bush não perde para Kerry. Em primeiro lugar acusa o outro candidato de ser a favor “de alianças internacionais que entregam a segurança dos EUA na mão de outros países”, mas se contradiz ao criticar Kerry por defender uma discussão bilateral com a Coréia. Segundo Bush, nunca podemos “deixar a China de fora, para nossa segurança”. No fim, pareceu que sua plataforma é ser contra tudo que seu adversário diz.
*Kerry se torna muito confuso ao falar mais do que um minuto. Ele apresenta muitas idéias e análises, mas o americano médio e impaciente não se vale muito disso para suas decisões. A bem da verdade, o eleitor médio de qualquer país não se vale de análise para suas decisões. Fora isso, Kerry atacou Bush com naturalidade, não caindo no erro de Al Gore.
*Infelizmente, para Bush, ele se comportou como se nunca houvesse governado os EUA, e não procurou defender as suas medidas. Ele pareceu pouco ciente do que seu governo havia feito, mas por outro lado deixou claro a mensagem de que ele é um homem do povo, ignorante como o povo.
*Num dos momentos mais engraçados do debate, Kerry menciona o Protocolo de Kyoto (!), dizendo a sua presidência não o assinou, etc. Na réplica, por algum motivo Bush explica porque os EUA não assinaram o tratado da corte internacional de Haya (!). Uma confusão mental do presidente?
*Em outro momento deprimente do debate, que no bojo, foi um Brizola-Lula vs. FHC, Bush responde se a guerra valeu 1000 vítimas , com eu estive com a família de um soldado, e estou dando muito amor para a mãe dele (!). Obviamente, na réplica, Kerry não teve o que comentar, e se limitou a falar sobre seu respeito as tropas, etc. Conhecendo bem os EUA, os cristãos de ultra-direita estarão satisfeitos em constatar o “coração de Bush”. Mas a realidade, é que a tal mãe havia acusado o governo de matar o seu filho… Inclusive apareceu na teve uma semana atrás.
*Kerry tem um grave defeito: assim como o fraquíssimo Bush, ele procura não se manifestar sobre suas opiniões verdadeiras. Ambos são mentirosos, e oportunistas. Mas ao menos neste debate, ele se diferenciou de GW por não parecer confuso nunca.
*Nas perguntas sobre WMDs, Bush se perdeu completamente. Sua única resposta coerente foi que a Líbia havia entregue as armas, mas Kerry deveria ter dito que isto foi parte de um acordo realizado no governo anterior, e o diplomata que conseguiu a entrega é o mesmo da era Clinton. Permaneceu lá, Jesus sabe como…
*Bush tentou suas piadinhas, mas desta vez ficou parecendo Gore em 2000. Kerry, sério demais, perdeu a oportunidade de dar umas sapatadas neste político oportunista… Mas o discurso que fechou o debate foi um ponto a favor a Kerry, que ao menos foi original. Bush novamente soou confuso, e para completar completamente robou a chave que finaliza o seu discurso (e menciona montanhas e vales, etc, etc. numa claríssima referência ao cristianismo e a bíblia) de um famoso discurso de duas décadas atrás.
Para terminar, depois de assistir a este debate, qualquer homem inteligente que ainda tem estômago para votar em Bush, estará fazendo não pelo candidato mas por ideologia própria. Duvido que alguém reflexivo, não tenha capacidade de observar a ineficácia deste atual presidente. A sorte dele é que o governo dos EUA praticamente anda sozinho… Os democratas não são muito diferentes, e se não chegam a ser cristãos radicais abertamente, se mantém alinhados as corporações em todas suas posições. Kerry, infelizmente, é o Suplicy norte-americano, bom para o senado, mas fraco para a presidência. É claro, ao menos ele tem cultura, inteligência, e sutileza. Algo que anda em falta atualmente… Não gosto dos dois, e ainda bem, não voto aqui !