Bebel Gilberto confirmou o que eu sentia sobre sua música, num show aqui em Nova Iorque: música agradável, sem muito sal, mas bom para ouvir no Taxi a caminho de algum lugar. Mas não foi nem por isso, e nem porque conheci um biólogo, seu namorado, e um casal de amigos hetero, biólogo americano treinado em Oxford, que trabalha com finanças de livros infantis por frustração acadêmica, que o show foi diferente.
A Bebel Gilberto fez algo que volta e meia vejo brasileiros fazerem aqui nos Estados Unidos: jogar para a galera. Até os mais revoltados brasileiros, que muitas vezes já me disseram “jamais vou servir a ganância dos blah blah blah”, quando finalmente frente ao blablabla, costumam ir muito além do necessário para ser agradável. Eu notei isso na National Instruments, na Universidade do Texas, em Berkeley e agora neste show.
Nada contra você querer agradar os donos da casa, sejam eles chefes, professores ou intelectuais que podem ilustrar sua vistosa carreira. Faz parte do jogo social polir para ser polido. Mas acho que é meio estranho quando o comportamento é levado ao extremo, como costuma acontecer com brasileiros. Me dá impressão da manifestação de uma eterna insegurança, uma compensação pelos anos de esquecimento proporcionados pela economia e cultura inepta atual no Brasil.
Isso acontece em muitos níveis. Já vi brasileiros que jamais voltariam ao Brasil, reformulando sua opinião para agradar a visão turística do chefe. Já vi brasileiro rebelede político puxando saia de cientista político, só para ouvir um elogio. Já vi fofoqueiro que detona artista, escrevendo e propalando coisas cor-de-rosa sobre a mesma para compartilhar momentos Gap. Já vi assistentes de ensino que sentem uma enorme necessidade de serem cordiais passarem elogios vazios para receber a típica balançada de cabeça européia ou americana. Já vi artistas rebeldes praticamente se jogando para cima de donos de galeria para ouvir um elogio mixuruca. Com a diversidade da sociedade americana, é sempre possível encontrar um canto onde alguém concorda o suficiente com “suas idéias”. Este canto é exponenciado pelo comportamento dos brasileiros, que talvez por encontrar pela primeira vez um eco de mais sucesso do que ele pensa, passam a exageradamente tentar ser aceito.
Talvez esta seja a grande parte de nossa história como país: tentar encontrar uma identidade diferente da de filho bastardo de alguma capital colonial. Só que os métodos empregados costumam ser os mesmos que levaram a derrocada portuguesa pós-colonial: a completa ausência crítica de idéias e análise de motivos. Uma simples revisão de idéias e análise de motivos teria levado Portugal a rever seus burocráticos investimentos em igrejas de ouro, para apoiar a então dormente classe mercantil (que sim, existiu, mas também foi mal financiada). Argumento meio fraco, talvez.
De qualquer maneira, o mais interessante mesmo desta história toda, é que quase todos brasileiros que conheço tem várias objeções contra os Estados Unidos, e particularmente, contra as classes que mais tentam agradar. Em geral, passam horas destilando a sua frustração com a inépcia e falta de ginga do americano, e falta disso e daquilo. Quando no fundo, talvez seja somente reflexo da falta em si mesmo de um ideal verdadeiro e maior do que vencer a medíocre batalha de vender uma idéia sua.
Voltando a Bebel Gilberto, depois que ela passou metade do show fazendo caras e bocas, e agradando a platéia com platitudes desnecessárias como depois de se aproximar com um “I am a New Yorker, was born here”, e daqui a pouco um “We, new yorkers, are the best, most open hearted people out there, that makes feel the emotions”, e daí para baixo. Desnecessário, porque quando você ama alguma coisa fica evidente nos olhos da pessoa. Desnecessário porque Bebel Gilberto é admirada pelos Nova Iorquinos por gravações musicais que soam bem aos ouvidos daqui, não por causa da sua tentativa de identificação que completamente roubou a energia da primeira metade do show. E mais desnecessário porque soou artificial, não como um sincero e simples “eu amo vocês” no início ou fim do show.
Mas quando ela decidiu abandonar o tal típico método brasileiro, e se entregou mais a dançar e cantar na segunda metade do show, as músicas se tornaram eletrizantes, e com algumas ótimas covers, o show mudou para melhor. E no fim, acho que estava todo mundo muito mais empolgado com o lampejo criativo e sincero, do que com a retórica e propina emocional. Não é uma questão de se sentir por cima ou por baixo da atitude da artista, mas sim de identificar alguns dos traços nacionais se manifestando explicitamente, algo que já vi quase todos brasileiros que conheço fazerem por aqui. Pois bem, um lembrete para mim mesmo, e para meus amigos brasileiros: é melhor confiar no lampejo de criatividade, e na capacidade que nos temos para superar todas dúvidas e problemas do que se apegar a sistematicamente agradar alguma pessoa, autoridade, grupo para ser aceito.