ESTAR AMANDO SOZINHO

Quem imagina a solidão como uma grande sina, não imagina como existem casais solitários por aí. Eu mesmo conheço muitos. São formados por pessoas que perderam completamente a referência de quem são, por um medo aterrador de “terminarem sozinhos”. Este é um medo justificado, porque a existência humana é um experimento, e pode mesmo resultar em você terminar completamente sozinho.

Por outro lado, será que não estamos sozinhos ao basearmos nossos relacionamentos em necessidades hormonais e em muletas psicológicas? O verdadeiro amor, nos planos material e espiritual, não se manifesta por necessidade. O verdadeiro amor se manifesta na ausência de necessidades, porque ele é espontâneo. Como assim? O amor por qualquer coisa é algo que esta codificado em nosso ser. Não depende de uma situação ou sensação. E como tudo codificado em nossa psique, alma, espírito, a reflexão e meditação podem rapidamente traze-la a tona.

A primeira prova de amor é ser capaz de refletir sobre o objeto do amor, e ver nele, o nosso próprio reflexo. Quando a identificação com quem amamos é tão grande que não há separação ou mesmo a usual necessidade por aceitação ou asserção por quem amamos, encontramos um verdadeiro amor. Em todas grandes tradições sociais e espirituais, o sacrifício acompanha o amor. E qual o maior sacrifício? Mudar para aceitarmos o amor? Não. O maior sacrifício é deixar de possuir para poder amar. Amor não é uma avenida de duas mãos. Amor é mais um fluxo, de quem ama para quem se é amado. Sem demandas.

A segunda prova de amor é quando podemos refletir na consciência e elevação que o objeto amado nos traz. Não devemos cair de amores por alguém. Devemos flutuar, subir, voar de amor. O amor não é posse, ele é sublime. Um pouco de reflexão deixa claro quando o amor vai além da nossa necessidade hormonal e carnal, quando o amor vai além do nosso medo da morte. Pois são estes dois fatores, os hormônios e o “fim da vida”, as razões mais comuns por gerar boa parte da dor das pessoas, inclusive o medo da solidão. Na minha própria experiência amorosa, claramente posso ver as muitas paixões em que estes medos e necessidades influiram decisivamente.

A terceira prova do amor é quando podemos desvincular este “sentimento”, do nosso padrão usual de comportamento. Se todas pessoas tomassem alguns minutos de seu dia para refletir equilibradamente sobre seu passado, e sobre as ações, e depois para refletir sobre a causa raíz de cada ação, tenho certeza que irão perceber os padrões usuais de comportamento. Eles são simples e cíclicos. E as motivações em sua maioria das vezes passageiras. Algumas ações, por exemplo a decisão profissional, tem uma raiz mais profunda, que lhe dá uma convicção. O homem deve sempre seguir sua consciência e suas convicções. Então, um pouco de reflexão me mostra que muitas vezes a paixão é mera necessidade hormonal, ou um processo de substituição em que quero trocar uma sensação que considero desagradável por uma outra que imagino ser agradável. Mesmo que este julgamento de sensações seja pura imaginação… Afinal, a consequência de qualquer ação se encontra na raiz do porque se agiu.

Então vem a quarta prova do amor. A raiz de uma ação. O porque se age, revela se a ação é para nosso crescimento, ou por um padrão repetitivo e despercebido por nossa psique. Em sua maioria as ações são como respirar: um padrão repetitivo e desapercebido. As ações em sua natureza podem ser classificadas como sendo instintivas, egoístas e expansivas. A ação não se classifica por algum sentido do que é bom ou ruim de acordo com normas sociais. Ela é classificada pelo tipo de consequência que traz na evolução da nossa consciência. Sentir desejo sexual por alguém pode ser instintivo, egoísta ou expansivo. Tudo depende do que nossa reflexão sobre o desejo revela. Se por ventura for uma necessidade advinda do medo de ficar sozinho, se trata de um instinto egoísta, por pressão hormonal, se trata de uma razão instintiva, ou se for porque estamos com alguém com quem compartilhamos todo nosso ser, nossos sonhos, visões, e crescimento espiritual, o desejo sexual se torna expansivo.

A última prova de amor, é quando amamos alguém, mesmo estando plenamente satisfeitos. Neste plano o amor exibe toda sua verdadeira exuberância espiritual. A sensação de estar perto ou longe do nosso amor desaparece, porque ao se amar alguém vemos o nosso amor em tudo ao nosso redor. Vejo o objeto de amor em cada pessoa que conheco, em cada momento da vida. E fico feliz não porque o amor é ou não é retribuído, mas sim pela oportunidade de amar. Neste plano, a questão de se estar só, o fato de poder morrer amanhã, não é importante. O próprio amor é a resposta, ele é imortal, e nunca podemos estar só quando a todo momento o amor se manifesta.

A maioria dos mestres espirituais escolhem estar sozinhos. A razão é simples: não se trata de repressão ou supressão, mas sim de expansão. Quando se vive plenamente realizado de amor, de respeito próprio e segurança psicológica, é fácil sentir amor por todas as coisas. Não há necessidade de se separar ou escolher um objeto para receber nossa atenção. A verdadeira solidão é quando nos enganamos corriqueiramente ao imaginar um mundo rodeado por outros e seus relacionamentos, e sentimos necessidade de ser amados. Porque nunca podemos ser amados como queremos ser amados. Nossas vontades não entram como fatores no amor. Cada um ama a sua maneira. Oferecer amor, é a única maneira de ser amado. Sentir necessidade amorosa é uma prisão, uma maneira de encontrar rapidamente desilusão e de destruir a inocência e o prazer que acompanham o amor.

PS: Prazeres mecanicamente e ciclicamente repetidos se tornam destrutivos. A própria experiência sexual se tornal banal e egoísta sem nenhuma profundidade espiritual ou energética quando fazemos por hábito psicológico. Quando acontece um amor que vai além da paixão, os prazeres vão bem além…

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