O FIM NÃO É COMEÇO

Recebi ontem a notícia que um tio meu morreu anteontem de ataque de coração. É a primeira pessoa que eu conheço que morre. Eu o vi vivo da silva em Agosto, e agora seu corpo foi cremado, e as cinzas espalhadas pelo mar.

Quando soube da notícia, senti algo estranho. Complicado descrever. Não fiquei muito triste, talvez porque não o conhecesse bem. Mas fiquei com saudades. É como se ele houvesse ido fazer uma longa viagem, e seriam mais 15 anos até vê-lo novamente, curtos como os 15 anos de intervalo em que não fui a Índia.

Talvez a morte não seja o fim que eu preconizava que fosse. Talvez na vida não exista um início ou fim bem definidos, porque para quem chega ou quem vai, simplesmente o tempo começa e termina. Não há o que se sentir antes ou depois. Ele construiu sua família, viveu bem, e quando o encontrei estava feliz mas preocupado. Mas me disse que as pequenas preocupações é que permitem se iniciar as grandes mudanças. Talvez fosse um pouco profético.

Não existe compreensão, nem análise, nem nada mais que expliquem este fenômeno da morte. Mas aprendi que não preciso correr com a minha vida só porque já sei que em algum ponto esta existência acaba. Prefiro viver aos poucos, experimentando as coisas, com minhas pequenas preocupações. Mas sinto que existe algo além de estar presente, viver e morrer. Não estou falando de reincarnação ou qualquer outra coisa - como por exemplo a teoria do paraíso - que venha a oferecer consolo pela morte.

Eu acredito que existimos além da nossa vida, porque afetamos o mundo de maneiras irreversíveis. Todas aquelas pessoas cuja existência foi perturbada por interagir consosco carrega um pouco de quem somos. Existimos para sempre, porque aquela pessoa interage com alguém que então passa a carrega um pouco de nós também indiretamente. Uma grande rede que garante o contínuo de nossa existência, sem início ou fim abrupto. Não que este pensamento me de grandes confortos ao encarar a morte, mas sabendo disso me sinto mais livre, menos apreensivo ou desesperado para encontrar todas experiências de uma vez só. Somos todos imortais.

Fiquei de certa forma feliz porque meu tio cumpriu sua vida, pois viveu. Não existe muito além disso a ser feito, a ser construído ou destruído. Descobrir, amar, e compartilhar talvez sejam as grandes experiências da vida. E certamente são as experiências que expandem nossa continuidade nesse mundo. Nos colocam na nossa grande rede. Alguém uma vez me disse que logo poderemos gravar todos momentos da nossa vida em video, todos os dias e minutos de existência. Assim existiríamos para sempre, num formato de bits. Hoje sei que isso que não é importante. Nem mesmo existir é tão fundamental assim. A única coisa fundamental para mim é ter carinho pelo ato de existir, e tentar viver e compreender meus momentos. Todos eles desaparecerão, mas continuarão registrados para sempre no universo pois no fim das contas somos todos um só… Uma grande coleção de átomos, moléculas, energia que se movimenta ao bel prazer.

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