Desde que deixei de comer carnes, peixes e aves, não tem uma refeição que alguém não tente me convencer a retornar a comer carne, indague sobre as consequências minerais e proteicas nefastas de tal escolha, reafirme que jamais fariam tal sandice, elogie a opção de vida ou pergunte porque disso, porque… Isso quando desafortunadamente não tentam me oferecer um pastelzinho de carne fantasiado de queijo.
Acho que é mania de brasileiro: o pitaco. Damos pitaco em tudo. O tempo todo. Mesmo quando não é necessário, ou quando pitaco já foi dado dezenas de milhares de vezes. O pitaco nacional é um mecanismo de proteção devido a outra condição do brasileiro: levar tudo para o pessoal. Então, qualquer idéia, discussão, crítica ou elogio sempre ganha contornos de algo pessoal. Neste universo, nada pode ser ruim, fraco ou bom, pois logo se transforma numa qualidade da pessoa que produziu o tal nada.
Acho que é a grande diferença entre alemães, americanos e brasileiros. “Sua idéia está uma merda” significa coisas diferentes para estas pessoas. Para americanos, “sua idéia está uma merda” significa que a idéia não foi entendida, ou realmente a idéia está uma merda e uma nova idéia deve ser gerada ou a atual aprimorada. Para o alemão, não significa nada. Realmente nada. E para o brasileiro significa que você é uma merda.
Por isso acho que no Brasil toda reunião ou termina em bate-boca, ou em afagamento de ego generalizado. Não existe a possibilidade de se discutir uma atividade sequer sem envolver o caráter ou a persona dos que estão discutindo. Muitas vezes, acho que esta grande ineficiência é responsável por projetos que atrasam ou acabam não cumprindo o seu potencial. Também pode ser a razão porque é mais divertido estar numa reunião entre brasileiros.
Retornando ao pitaco. O pitaco é a chance que todo mundo tem de revidar ou consolidar seu ego, as custas de opiniões irrelevantes. Assim como o Brasil, país em crise de identidade contínua - assim como eu -, os brasileiros satisfazem a necessidade de auto-afirmação com o pitaco. A armadura do pitaco também impede críticas a verdadeiras idéias próprias, afinal o pitaco sempre se refere a alguma coisa que é desimportante ao pitaqueiro.
Por exemplo, todo brasileiro dá pitaco sobre mulher, futebol e o que o José Alhures Pé de Cabra deveria fazer para o programa nucleo-espacial nacional dar certo. Mas nenhum se atreve a debater porque decidiu pintar a parede do quarto com tinta a oléo cor-de-rosa, quando a casa inteira era amarela. Ou ainda porque resolveu sucumbir a vida familar com Joãozinho, quando todos já sabiam que Joãozinho não tem nada a ver com ela.
Muitas pessoas que eu conheço chamam isso de uma questão de educação. Debater um assunto ou uma escolha quando o autor da idéia está presente é má-educação. Porque? Porque a crítica nunca pode ser só sobre a escolha ou sobre a opinião, mas é sim um julgamento de caráter do autor. Por outro lado, dar pitacos em assuntos não relacionados a quase ninguém presente é uma forma de discutir e treinar a massa encefálica argumentativa sem provocar inconvenientes.
Existe uma exceção a regra do pitaco. Quando a maioria esmagadora dos presentes se defenestra em alguma posição em comum, não existe razão para evitar o debate. Então, por exemplo, se numa mesa a maioria esmagadora dos presentes for ateu, e um pobre evangélico - se bem que estes também adoram dar pitacos na vida dos outros - estiver presente, não haverá razão para evitar críticas as escolhas de vida destes últimos.
Nestes momentos de maioria esmagadora, encontramos as críticas mais ferozes, e as opiniões mais escatológicas num fluxo quântico contínuo, e de alto volume. Algo que raramente se vê numa discussão entre americanos ou alemães. Acho que são momentos em que procuramos compensar o excesso de sensibilidade, pitacos e refreamente que a índole e costume social nacional nos impõe. Uma espécie de catarase coletiva, exceto para a minoria vítma de esmagamento. Estes alimentam ainda mais sua insegurança verde-amarela, gerando mais energia para pitacos futuros. Ou seja, os momentos de maioria esmagadora são como um dínamo para os pitacos…
Depois deste estudo antropofágico-ilógico das consequências do vegetarianismo, deixo aqui o meu agradecimento a todo pitaco que foi dado a minha escolha alimentar. Se talvez num futuro próximo eu escolher uma dieta a base de Farinha Láctea, uma boa discussão sobre as necessidades e transtornos de uma dieta a base do pó sejam apresentadas… Como adoro dar pitacos também, sugiro a todos uma boa refeição.