A vitória dos socialistas em Portugal vem a provar mais uma vez que frente a uma crise econômica e educacional, ou seja insegurança sobre o futuro, a população prefere eleger a alternativa ao poder. A esquerda vem sendo eleita em sua maioria das vezes, não porque apresenta propostas inovadoras ou alternativas viáveis ao sistema existente, mas sim porque o sistema existente não oferece alternativas para crescimento. Em muitos países, o que há é uma hoste de administradores públicos sem imaginação e sem ímpeto para fazer mudanças que talvez não deêm certo, e assim comprometam suas carreiras no futuro. Isso vale tanto para direitistas quanto esquerdistas, que constantemente se alternam no poder. A alternância contínua é uma tendência observada em muitos países. Ou seja, não valida sob hipótese alguma, os argumentos de ambos os lados, que suas ideologias ultra-polarizadas estão em demada pela população.
Obviamente, a falta de imaginação que assola a classe política e administrativa é somente reflexo da falta de imaginação da sociedade, e especialmente dos jovens. Em sua maioria os jovens sofrem hoje de pressões da sociedade em muitas direções conflitantes, como escolha profissional, sucesso financeiro, obrigações familiares e uma imagem que reflita a juventude. Tais pressões tolhem completamente a imaginação e o componente do inesperado, que é justamente o que cria pessoas com idéias reinvigorantes. Talvez em meio a toda “liberdade” que se prega atualmente, nos encontramos ainda presos aos desejos coletivos da sociedade. Não se muda isso com pregação política ou econômica. Se muda isso quando reestruturarmos o tanto quanto possível a sociedade para aceitar a imaginação e criatividade de cada indivíduo. Vivemos hoje em uma sociedade que desvaloriza o ato de criar atribuindo valores a ele. Quantas pessoas não deixam de fazer coisas que gostariam, porque não podem faze-la tão bem quanto xyz?
Pior, muitas pessoas abandonam os figmentos de criatividade muito cedo: na escola primária ou antes. Somos reprimidos a ler, pensar, e agir de acordo com o modelo educacional imaginado por um grupo de psicologos e educadores que coordenam os sistemas de um país. Talvez, o excesso de estrutura educacional prejudique o desenvolvimento da criatividade de cada criança. Este desenvolvimento acontece em velocidades diferentes, em áreas diferentes para cada um. Escolas e lares mais abertos a criatividade, onde se estimule o que é único em cada um de nós, são o primeiro passo para devolver a sociedade grandes políticos, administradores, artistas, escritores, médicos, engenheiros…
O segundo obstáculo para o desenvolvimento individual é o excesso de informação. Mergulhados em tanta informação, referências, idéias, é muito mais difícil deixar crescer o que é seu. Pior, a filosofia do “delta” passa a ser aceita como modo de vida. A filosofia do delta diz que basta cada um pensar ou fazer um delta acima do que existe. Então, se sua família tem um apartamento em Ipanema, o delta seria um apartamento maior em Ipanema. Se você é classe média, o delta é ser classe média um pouco mais alta. E assim por diante, chegando até artes e ciências, onde os famosos “delta-papers” são responsáveis por mais de 80% das publicações sendo realizadas, de acordo com métricas da Universidade da California.
Finalmente, talvez o terceiro e mais invisível obstáculo é a cada vez menor existência de pessoas que nos ensinem com liberdade. Bons professores, mentores, modelos de vida, que compartilhem sua maneira de pensar e guiem os mais jovens a descobrir os seus caminhos. Na sociedade de hoje, ensinar e compartilhar praticamente não tem valor algum. O importante é aparecer, surgir, marcar o nome em círculos de influência de sua vida. Dizem que é correlacionado ao excesso de informação, e a precocidade das pessoas, que permite uma vida livre da influência dos familiares, professores e mais velho. Na minha opinião, é um conceito distorcido de indivíduo que surgiu após a revolução da psicologia, e as idéias marxistas do último século. Afirmar a individualidade através da competição exacerbada, e comprovar seu valor a partir da aceitação em circulos de influência é o que preferimos pensar por individualidade. Um dos grandes mensageiros desta imagem são justamente os clássicos da literatura, e do cinema, que por necessidade do meio criam os “heróis” emancipados do meio em que habitam. Uma consequência social disto, é a quantidade neuroses e problemas emocionais que afligem os jovens, e que em sua maioria preferem esconder do que investigar. A consequência é, que no afã de ser aceitos em algum lugar, reprimem sua imaginação.
Reconhecer as fraquezas de um modelo, não significa descontar o modelo como péssimo ou mesmo desvalorizar todas as conquistas realizadas pelo mesmo. Entretanto, saber reconhecer fraquezas e defeitos, é justamente o que precisamos para realizar as mudanças que a sociedade parece clamar. Ontem ouvi no rádio que 75% dos americanos, geralmente considerados “o povo mais contente do mundo” pelas Nações Unidas, se considera insatisfeito ou infeliz. A pesquisa de cunho econômico averigou que todos imaginam precisar 2x mais do que recebem atualmente para encontrar satisfação. Acredito que para a maioria das pessoas isso possa ser generalizado para todas áreas da vida. O programa terminou com o cientista responsável pela pesquisa clamando a sociedade a encontrar alternativas para este novo problema. E fez uma observação interessante: “Melhor fosse que o mundo inteiro estivesse bem materialmente, e infeliz, como se encontra os EUA, do que as diferenças que existem sociedades a fora. Ainda assim, encontrar um equilibrio nas várias facetas da vida se deflagra como um dos grandes problemas da sociedade”.