PEQUENAS SOMENTES

As pequenas mentes inundam as planícies, e especialmente, o planalto brasileiro. A aridez do sertão se observa na aridez de idéias das pequenas mentes. A pequena mente que partcipa de todo aspecto da vida do brasileiro, é justamente aquela que define oposições polares, e disputa a tapa posições completamente irrelevantes.

É ou não é, uma pequena mente que escreve em jornal, que se preocupa mais com a imagem de governantes e governors de outros países, do que com a do seu próprio? É ou não é, a pequena mente que vive de pequenas retaliações, para se vingar da grande frustração de não ser tão relevante quanto se pensa? A pequena mente, que eu pensava ser síndrome, deve ter origem genética. Porque não é possível que mesmo com a passagem do tempo, a mudança da paisagem, a pequena mente continua encontrando terreno fértil em terras secas.

A pequena mente abunda na produção do cinismo ideológico. Vocês podem pensar que se trata de pequenas mentes e grandes idéias. Não. O cinismo ideológico é coisa pequena também. Se manifesta em amizades, relacionamentos, na padaria, no supermercado e até no estacionamento. Esta condição humana causa a pequena mente a sempre utilizar dualidades entre certo e errado, posicionando o certo de acordo com conveniências. Mas o cinismo não vem daí. A principal característica é o grito, a reprodução sexual da coisa pequena, para ter certeza que todas pequenas mentes estejam a par de suas “posições”.

Antes que vocês contestem todas estas informações, eu explico que pequenas mentes tem o poder de informar sobre pequenas mentes. Em geral, se torna então uma mente um pouco perdida. Isto porque a pequena mente é sempre recheada de certezas que norteiam suas ações. Portanto, não existe necessidade de observação, explicação ou descrição.

O pior da pequena mente é que assim como todas coisas genéticas, ela se reproduz. Em alta velocidade. Enquanto se levam anos para se aprender a ler e a escrever, a pequena mente só precisa de minutos para se instaurar nos incautos que não herdaram a condição. Uma vez adquirida, precisam-se de muitos anos ou uma lobotomia para se perder o hábito, a conveniência.

Sim, a conveniência. Esta talvez é a maior razão para existência das pequenas mentes. Sabendo da aridez da paisagem, das dificuldades de se sobreviver por aí, da quantidade de energia e ação despendidas, ter uma pequena mente é a resposta darwiniana. É quase natural. Evita gastos energéticos, repensadas, redirecionamentos, reconsiderações, e todas as res- que possam afetar a comodidade física, intelectual e emocional do portador. E assim o ecosistema se mantém, com vários tipos de espécies, revolucionários, religiosos, espirituais, governistas, artistas, professores, e tudo mais. Todos diferentes, mas compartilhando o elo da seleção natural: a pequena mente.

Apesar do elo, a pequena mente sempre trabalha sozinha. Detesta interações, encontros e discussões, porque podem iniciar o processo de reflexão que acaba por deixar o indivíduo num estado confuso, e sem o benefício da pequena mente.

Mas todo processo evolucionário também cria mecanismos para evitar a superpopulação. Sempre foi assim na natureza. Não seria diferente no caso das pequenas mentes. Pode ser que demore a agir, porque a pequena mente se aperfeiçou, se sofisticou e se adaptou para permitir existência em imensa escala. Se mostrou uma das maiores ferramentas para sobrevivência, especialmente nos planaltos e planícies brasileiras.

O mecanismo que destroí pequenas mentes se chama implosão. Um grupo de pequenas mentes é literalmente implodido. Na verdade, o mecanismo é irônico. Uma ironia de Darwin. A pequena mente, como diz o Romário, se destrói sozinha. Na ânsia de se tornar relevante, se expandido por todas direções, a pequena mente cria muitas ineficências, que acabam por implodi-la. É fato curioso. Talvez o primeiro exemplo de veneno autofágico na natureza. A implosão acontece quando muitas pequenas mentes existem em uma pequena área, o alimento da mente, idéias, param de existir, de acontecer já que pequenas mentes trabalham sozinhas. Aí, a mente morre. E junto com ela a pequena mente vai embora.

Algumas mentes ao longo da história tentaram influenciar o processo que levou a adoção generalizada da pequena mente. Porque astutamente observaram que este efeito é o que se chama na matemática de máximo local. É um máximo pequeno, insuficiente, mas que é o primeiro que se encontra. Um dos problemas mais difícieis da matemática é descobrir jeitos de escapar de máximos locais. Por isso mesmo, estas mentes que se aventuraram a propor isso, se tornaram personagens históricos. Infelizmente, como as pequenas mentes se encontram arraigadas em todos lugares, especialmente nas planícies e planalto brasileiro, na maioria das vezes a história é escrita por elas. E assim se perdem o que as mentes diferentes tentaram manifestar.

Ainda assim, na outra ironia darwiniana, algumas informações não processadas pela pequena mente são mantidas e repetidas - não processar informações e repeti-las é uma das características da pequena mente. Estas informações e experiências se encontram dispersas por aí, numa espécie de código para mentes confusas. É um código difícil, mas justamente nesta dificuldade parece ter encontrado a forma de existir perpetuamente. Existe em todos lugares, até mesmo nos áridos planalto e planícies brasileiros. Quem sabe este código seja decifrado por cada vez mais mentes, e estas cheguem a um nível maior de satisfação, escapando do tal máximo local. Este será o fim das pequenas mentes, assim como um dia todos dinossauros desapareceram. O único detalhe é que levou milhões de anos…

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