A maioria dos jovens parece carecer da crença em alguma coisa. Um mundo sem muito chão, sem âncoras, inicialmente parece prover liberdade extrema, mas depois se revela uma grande prisão em que existem poucas possibilidades de crescimento, poucas belezas encantadoras, poucas coisas que conquistam a nossa alma. Pior, muitas pessoas me repetem que se trata de um lugar frio e solitário, onde vence o mais forte.
Pensando um pouco no assunto, talvez o que falte não é crença, mas sim paciência e tolerância. Muitas coisas bonitas e legais da vida se perdem por pura falta de paciência ou falta de tolerância. Quantos desentendimentos, mentiras, paranóias não poderiam ser evitados se todos fóssemos mais tolerantes e pacientes? Mais importante, com um pouco de paciência podemos até observar Deus na natureza, ou milagres.
É muito díficil até falar num assunto destes hoje em dia. Mesmo depois que Godel provou a falibilidade de uma estrutura lógica para representar o conhecimento, mesmo depois que os físicos demonstraram a aleatoriedade probabilística dos elementos que nos compõem, preferimos viver na certeza das ações e conseqüências. Não adianta ser muito inteligente, sem se ter um pouco de ingenuidade. Como também não adianta ter muita raiva sobre o estado das coisas, sem a disposição para mudar a si próprio.
Talvez, estejamos vivendo uma juventude incômoda pela negação total de qualquer idéia ou conceito. Por outro lado, é uma negação muitas vezes cega, que não advém da observação ou experimentação. Uma analogia é a situação da matemática nas escolas: ela é apresentada como fria e lógica, uma espécie de estrutura mecânica de conhecimento. Mas na verdade é uma área que com um pouco de paciência e carinho, revela idéias lindas, momentos maravilhosos de descoberta, e não requer décadas de conhecimento acumulado para se fazer descobertas.
A vida é um pouco assim como a matemática, todos, desde o mais moleque até o mais idoso podem descobrir algo precioso a qualquer instante. O momento em que se descobre algo, é um grande milagre. É inexplicável de imediato, que para mim é definição de milagre.
A resposta ao niilismo do dia a dia, é o vigor com que muitos jovens defendem causas e ideias, e esposam idéias diferentes a cada segundo, sem muito critério e na maioria das vezes seguindo alguma moda da época. O que para mim seria um dos grandes benefícios da sociedade, experimentar muitas idéias diferentes, se perde, porque são tantas as modas, idéias e correntes, que o caráter experimental de hipótese, experimento, observação e conclusão se perde. O modismo se sobrepuja ao conhecimento.
Sobreviver aos modismos, não resolve o conflito imposto aos jovens de hoje. O niilismo é muito bom para quem manda, quem controla. Ele é pessimo para quem está nascendo agora. A negação dos sonhos e possibilidades impossíveis, acaba por tornar a vida fria, recheada de “cálculos” e previsibilidade, presos ao nosso próprio medo de acabar se tornando o nada, o vazio que a sociedade apresenta ideologicamente.
Talvez sejamos todos nadas, vazios. Mas mesmo assim, não devemos ser frios e calculistas. Ou muito menos, tirar conclusões precipitadas a todo instante, negar todas possibilidades, somente porque esta tem sido a tendência da sociedade. Neste sentido, compreender, celebrar e aceitar o próximo, é compreender e aceitar a nós mesmos. E talvez, seja este um dos milagres que somos capazes com um pouco de paciência e tolerância.