Por um tempo andei observando o que acontece e aconteceu no Tibet. Conversei com muitos chineses e tibetanos, e ainda com monges budistas para saber o que se passa naquele pequeno anexo da China, que por via das dúvidas, historicamente sempre foi independente, inclusive recebendo proteção de reis indianos e mongóis e imperadores chineses.
É fato consumado que a China e seus frios intelectuais comunistas promoveram uma limpeza étnica em massa, através da imigração induzida de chineses para a região. Os chineses ganham incentivos financeiros, como dinheiro vivo e moradia, para ir para o Tibet. O que não se noticia muito é que os chineses imigrantes ao chegarem no Tibet, descobriram que tibetanos não eram chineses. Nem na cultura, nem nos hábitos, nem historicamente, nem na índole e muito menos na fisionomia. Mas isso já foi bem posterior ao processo “civilizatório” imposto pelos chineses.
Segundo a maioria dos fatos históricos que consegui agregar, o Tibet sempre foi uma região pacífica, agrícola e com a maioria da população dedicada as tradições de filosofia e espiritualidade. Inclusive, a região nunca contou com exércitos porque a proteção era provida pelos reinos vizinhos, devido ao impressionante conhecimento filosófico e prático que os muitos monges intinerantes levavam as cortes chinesas, mongóis e indianas.
Para um ocidental é muito complicado entender como pode existir uma sociedade, mesmo pequena, em que a maioria das pessoas tem uma crença completamente diferente das outras sociedades próximas. Ainda mais sendo esta uma crença que inclui a certeza da reincarnação, a exaltação da divindade no homem e a entrega sistemática a exploração espiritual por uma parte da população, enquanto a outra sustenta esta primeira parte, e ao mesmo tempo desenvolve folclore, tradições e o crescimento espiritual dos indivíduos. Entretanto, não é tão complicado se compararmos o que acontecia no Tibet com a sociedade pregada e implementada por Jesus há dois mil anos atrás. Os valores são parecidos e a busca dos membros da sociedade é praticamente igual: encontrar paz, simplicidade e a liberação do sofrimento.
Talvez a analogia termine quando a igreja institucionalizada aceitou pregar guerras, por desejo de conversão cristã. No pensamento budista, o processo de conversão não existe, porque a compreensão espiritual é um processo individual, que não pode ser imposto. A idéia budista é que cada um siga o seu caminho para espiritualidade, mas para aqueles com dificuldades em descobrir seu caminho, o monstério com suas regras, regimentos e tradições provê a primeira direção, uma base. Os monastérios tibetanos produziram alguns dos grandes pensadores espirituais do último milênio. Além disso, guardavam em suas bibliotecas, extensivos tratados de pesquisa escrito pelos monges. A pesquisa destes monges sempre visou tentar compreender como funciona a mente, como expandir as reservas de energia do organismo para se ter uma vida mais ativa e saudável, e finalmente, em como observar os reflexos da realidade na nossa mente.
Talvez por se aterem ao hábito antigo de escrever com metáforas, e se utilizar de imagens espirituais para registrar sensações e insights, alguns tratados budistas podem acabar parecendo pregar fantasias. No entanto, o Budismo, diferentemente da maioria das tradições orientais, é bastante conservador em relação ao assunto: todas “divindades” e “sensações espirituais” não representam verdade alguma. A verdade é pura e simples, e os métodos utilizando imagens religiosas ou controle das sensações, são um dos caminhos para relaxar a mente e o corpo, e nos capacitar para reencontrar esta verdade. “Verdade” não confere poder algum ao indivíduo, somente o faz capaz de compreender seu próprio sofrimento e insatisfação.
É baseado nestes princípios filósoficos, que a maioria dos monastérios budistas foi estabelecido, e ao menos os grandes mestres do budismo costumam incitar.
Mas existe uma outra verdade: nenhuma sociedade existe sem a confluência de uma instituição política. As instituições políticas do Tibet eram simples e rudimentares, como uma espécie de feudo onde alguns monges budistas tem o poder decisório. O líder político é sempre o Dalai Lama, que reincarna para servir politicamente o povo tibetano, e sua reincarnação é identificada pelo segundo em comando, o Panchen Lama. Na prática, os lamas e a população eram indistinguveis, apesar de eventuais abusos de poder. Quase toda família tibetana tem um ou dois filhos num monastério, e esta relação garantia uma estabilidade para a sociedade como um todo. Se não era o melhor dos mundos, certamente era bem melhor do que acabou acontecendo com a limpeza étnica chinesa.
Com a invasão chinesa ao Tibet, feita em etapas, algumas coisas mudaram. Num primeiro momento, a China negou completamente o Budismo, e a prática budista, e isto levou a um levante popular no Tibet. Monges e a população que havia inicialmente recebido os chineses de braços abertos, se armaram e entraram em confronto com a guarda chinesa. Apesar disto, os chineses destruíram e desmantelaram muitos monastérios, tomaram terras a pretexto de reformas, e queimaram muitos livros e quadros da tradição budista. Por alguns, impediram por completo a prática das várias atividades foclóricas do local. Seria como impedir a comemoração do Natal no Brasil. Outro exemplo de arbitrariedade foi forçar todas as escolas locais a tornarem o mandarim a língua oficial, e impedir a instrução em tibetano. Isto impediu a transmissão da cultura na escola, e também formou uma grande massa de analfabetos no Tibet.
O Dalai Lama fugiu para o exílio no dia anterior que sua residência foi destruída pela artilharia chinesa. Após muitas tentativas de envolver a população local economicamente - inclusive numa idéia estúpida e falida de Mao de plantar trigo na região -, os chineses perceberam que não havia como influenciar os hábitos dos tibetanos, e decidiu pela invasão étnica. Pela própria cultura do tibetano, eles tinham poucos filhos e isso facilitou ainda mais o trabalho dos oficiais chineses. O processo civilizatório culminou com o estabelecimento de boates e bares, em cidades como Lhasa que nunca tiveram tal atividade. Com o aumento da população chinesa, ao invés dos tibetanos se enriquecerem e se integrarem aos padrões ocidentais de desejo e consumo, estes terminaram marginalizados e abjetamente pobres. O choque cultural impediu as tentativas forçadas de integração.
Os chineses sofisticaram seus métodos, e passaram a permitir que monastérios operassem no Tibet, desde que todas atividades espirituais fossem vigiadas pela polícia chinesa, e não involvessem discussões sobre desigualdade ou condição humana que fossem contrárias as determinações do Partido Comunista. Em mais um exemplo das aribtrariedades chinesas, um menino identificado como o Panchen Lama pelo Dalai Lama, foi posto em prisão residencial, e o líder do Partido Comunista sugeriu um novo garoto para ser o “Panchen Lama”. Segundo a tradição local, o Panchen Lama é capaz de identificar a reincarnação do Dalai Lama, que seria novamente o líder espiritual dos tibetanos. Desta forma, os chineses irão no futuro “indicar” o líder da região. Esta foi a primeira grande quebra na linha espiritual dos budistas tibetanos, e para muitos foi uma das razões para a desistência do atual Dalai Lama em manter uma atitude crítica da China.
A segunda razão foi a opinião dos exilados tibetanos que vivem na Índia. Cerca de 300 mil exilados fundaram e mantêm uma cidade indiana, Dharamsala, onde estão monastérios, escolas e o governo tibetano no exílio. Os exilados providos de liberdade, e incialmente apoiados economicamente pela Índia, se educaram e muitos fizeram universidades na Índia. A primeira geração de exilados já entrou para o mercado de trabalho, mas também mantém muitas organizações para preservar a cultura, protestar contra os abusos da China e ajudar outros exilados a encontrar parentes e amigos que ainda estejam no Tibet ou que por ventura tenham sido assassinados pelos chineses. Estes mataram milhões de tibetanos com o passar dos anos. A opinião dos exilados é que ou uma revolução por força era implementada no Tibet, ou eles teriam que negociar uma saída econômica com os chineses, porque na situação atual, os tibetanos estavam rapidadmente se tornando minorias em seu próprio país.
Se por um lado no ocidente, criticamos e ridicularizamos a oportunistica aliança entre músicos e artistas famosos, e o Dalai Lama, por outro lado não acho justo fechar os olhos para o que aconteceu na região. Na minha opinião pessoal, não é uma situação reversível. Mas demonstra muitas coisas sobre a nossa sociedade, que as vezes finigmos não ver: (1) intolerância a atitudes diferentes sobre a vida, (2) a capacidade de um povo de auto-regenerar sua cultura, como os tibetanos fazem agora na Índia, (3) a importância da liberdade filosfófica, espiritual e religiosa, que para mim é muito maior do que o enriquecimento da população através da destruição total de seus hábitos e costumes, e (4) a impossibilidade da maioria dos intelecutais ocidentais de aceitar qualquer idéia diferente daquela que nós é enfiada na escola: o pensamento iluminista e socialista.
Não existem heróis na história recente do Tibet. Existem muitas pessoas que se sacrificaram tanto do lado chinês, quanto do lado tibetano. Mas existe com clareza uma instituição e uma forma de pensamento culpadas pelas extensas atrocidades cometidas na região: o Partido Comunista e sua filosofia da espirtualidade morta. Não há justificativa para prostituir, saquear e destruir os habitantes e tradições de uma região. Pior é fazer isso pelo verdadeiro motivo que o governo chinês quer controlar o Tibet: acesso a uma das regiões mais estratégicas da Ásia. Colocar sistemas de misséis ali, significa ter uma frente para ataque e defesa contra três países simultâneamente. Gengis Khan já dizia que quem controlasse o Tibet seria o Imperador da Ásia. Não o controlou, porque ficou impressionado e emocionado com uma apresentação da filosofia e poesias locais por monges budistas. Ao que parece, a mesma tática não funcionou com o partido comunista, apesar de render um Nobel da Paz ao Dalai Lama.
A maioria dos monges e Lamas, e tibetanos em geral, que encontrei são pessoas muito simples, e com pensamento simples. A sofisticação do pensamento está em outra esfera, na exploração das possibilidades da meditação. No seu trato do dia a dia, e comigo, ao menos, me pareceram até pessoas um pouco ingênuas, sem as várias artimanhas que adquirimos ao se lidar numa sociedade efetivamente construída para o sucesso na empreitada material. Talvez, esta ingenuidade, e desconhecimento prático de um modo de vida ocidental tenham contribuído fundamentalmente para o fim do Tibet e sua cultura na região autônoma do Tibet. Mas talvez a mesma igenuidade e vigor espiritual estejam renascendo esta sociedade, longe de casa, em Dharmsala, na Índia.
PS: A “capitulação” do Dalai Lama só representa a aceitação deste líder da vontade da maioria dos exilados no Tibet para uma resolução rápida da situação. Representa também uma compreensão maior por parte deles da mente do chinês e do ocidental. O Dalai Lama sempre afirmou que nenhuma nação agirá em detrimento de sua própria população, ou quando não encontra benefícios em causa própria… Talvez, após observar pacientemente a situação por todos estes anos, e o que aconteceu no Iraque e nas redondezas, ele tenha chegado a conclusão que a filosofia e idéias oferecidas pelo Tibet não estejam em voga nos círculos políticos ao redor do mundo. Nenhum movimento vive do apelo popular, todos vivem da adesão do poder.