“It is a safe rule to apply that, when a mathematical or philosophical author writes with misty profundity, he is talking nonsense” - A. N. Whitehead, matemático
O Globo parece bastante preocupado em promover sua novela “América”, e se utiliza de um “pseudo-debate” em que pessoas expressam suas opiniões e ora endeusam a fuga para a “América” (do Norte), ora esculhambam os que fugiram porque “dinheiro não é tudo”, etc, etc. O volume de mensagens recebidas pelo debate demonstra o interesse da população, especialmente de classe média baixa, pelo assunto.
Infelizmente, o tal debate é somente uma fachada promocional. Um verdadeiro debate sempre parte de um conjunto de premissas, no caso mal estabelecidas. Sem premissas, modificando-se contextos, podemos ter qualquer ponto de vista como um ponto de vista válido. Se o contexto for imigração ilegal para os Estados Unidos, vis-a-vis a vida de classe média baixa no Brasil, talvez haja um consenso. Se o contexto for estabilidade emocional de um imigrante, o consenso provavelmente é outro.
Uma segunda informação fundamental em um debate é sobre as experiências dos partcipantes. Debates são interessantes quando envolvem poucos partcipantes com um amplo espectro de experiências. Se tornam menos interessantes quando se polarizam ao redor de idéias preconcebidas ou ainda mais quando se tornam arenas para defesas de idéias sem apoio de experiência.
No jargão de engenharia, um bom debate é o equivalente ao estudo de um “toy problem”: um problema simplificado, através da inclusão de premissas claras, que capture a essência de um problema de interesse da comunidade, e cuja solução provê insights sobre o problema real.
A vantagem do “toy problem” é que ele pode ser analisado teoricamente, e as características de sua solução verificadas na prática, dentro de experimentos conduzidos diante das premissas propostas.
Muitos “toy problems” podem ser construídos para uma mesma questão. Boa parte deles não é interessante. Um modelo interessante envolve um pequeno número de variáveis, e poucas (ou nenhuma) premissas não naturais. Um bom “toy problem” também fomenta idéias claras sobre o design da solução para o problema real original. A simplicidade e beleza da formulação de um “toy problem” são importantes. Mas estas qualidades estéticas não são tão importantes quanto a relevância do modelo e a naturalidade das premissas. O que faz do “problema brinquedo” uma arma poderosa para compreensão é a sua previsibilidade teórica, acoplada a imposição de premissas claras. Estes dois fatores permitem concluir coisas como que premissas são essenciais para resolver o problema original, e que tipos de comportamento a solução do problema original pode vir a ter.
Um dos grandes problemas da pesquisa na área de engenharia, e outras ciências matemáticas, é a proliferação de problemas-brinquedos despropositados. A noção de publique-ou-morra vigente, que equivale a grite sua opinião-ou-desapareça, acaba levando engenheiros e cientistas a construirem uma série de “toy problems” irrelevantes, mas que devido a sua complexidade matemática, e a sequência de teoremas e definições, com referências a livros e papers importantes da área, são publicados em jornais de alta reputação.
Na maiora das áreas que ja estudei com um pouco mais de cuidado, para cada um ou dois modelos interessantes, noventa modelos dispensáveis são apresentados e publicados. Eu já ouvi falar até de exemplos que provam belas teorias, só que as premissas assumidas impõem que a subclasse de problemas reais capturadas pelo modelo é vacuosa. Um exemplo hipotético seria assumir que a viscosidade de um fluido é sempre maior que o logaritmo da turbulência, e provar a existência do ponto fixo na relação de Navier-Stokes para fluxo de fluidos. Só que é impossivel esta relação (viscosidade maior que logaritmo) existir. Este tipo de furada é mais comum do que se imagina, e acontece de muitas formas sutis. Outras furadas são provar centenas de resultados sobre um modelo, quando um ou dois são suficientes para caracterizar tudo que aquele modelo pode prover de insight. Gritar alto, e bastante, idéias vacuosas não são um bom debate.
O pseudo-debate já era um problema em todas áreas do conhecimento, e com certeza na ciência nos últimos 100 anos. Com a proliferação dos meios de comunicação em massa, e os sistemas que permite contato e partcipação em tempo real, o pseudo-debate está tomando conta também das atividades políticas e estudos sociais. Ela é uma arma perigosa e polarizadora. Prestando um pouco de atenção se percebe que a maioria dos debates não visa obter um consenso sobre uma grande questão, ou mesmo insights sobre a solução da grande questão e compreensão dos efeitos das premissas na resposta. A maioria dos debates visa sim o apareça-ou-morra, em que se você não aparece o suficiente, desaparece dos meios de comunicação.
O grande problema do pseudo-debate é que a maioria das pessoas não tem consciência de quando está assitindo a um verdadeiro debate ou a um pseudo-debate. Uma falha do sistema de educação e dos pais, que tem a obrigação de incutir e motivar a criatividade e o senso crítico dos seus filhos.
Ter senso crítico não é só uma questão intuitiva ou estética. É também saber os limites dos próprio conhecimento. Somente com uma noção dos limites do meu próprio conhecimento consigo avaliar a validade de um modelo de brinquedo. Senão as vezes um “toy problem” despropositado pode parecer uma obra de arte, simplesmente por suas belas e complexas construções que eu não havia visto antes.
Um bom debate tem apelo para todas pessoas, especialistas ou não. Um debate ruim tem apelo para torcidas organizadas, e para não especialistas, que muitas vezes não o destinguem do debate bom. Para nossa sorte, existem características que podemos usar para avaliar a qualidade do debate, mesmo sem sermos especialistas no assunto. Podemos perguntar: estão as premissas claras? Há uma questão maior? O assunto debatido é relevante para esclarecer a questão maior original? As premissas parecem ser razoáveis e naturais? A questão é bem definida o suficiente para permitir conclusões razoáveis e interessantes? Se houver um consenso no debate, ele permite insights importantes para desenvolver a questão original? Qual a relação entre o debate atual, e debates anteriores sobre a questão em debate?
Para avaliar a qualidade de um debate, ex-post (ou seja, depois do fato), podemos nos perguntar se alguma idéia interessante e surpreendente surgiu do debate, ou se algum consenso razoável emergiu sobre a questão.
Esta política do bom debate deveria ser adotada com uma firmeza maior em áreas não científicas. A arma do pseudo-debate vem sendo utilizada cada vez mais mundo afora. No Brasil, o PT gosta de utilizar este expediente para se sobressair nas manchetes de jornal. Um exemplo simples é o debate dos gastos públicos, onde se contrapõem sem muito critério ou clareza noções como “gastos com classe média” e “miséria”. Da maneira como o debate é conduzido, com um pouco de persistência e gritaria, todos pontos de vista parecem razoáveis. Ou seja, é um péssimo debate, com o simples intuito de prover um meio para os debatentes aparecerem na foto, ou construirem o seu ego. É bom ficar de olho no que é um bom debate, uma boa análise, e no que não é, antes de expressar opiniões e gastar calorias.