ESCRITOS E ESCRITORES

Leiam aqui o ótimo texto (e a discussão subseqüente) do Julio Daio Borges sobre escritores da geração atual. O Digestivo Cultural e o Na Cara do Gol, do Rafael Lima, são para mim as duas melhores resenhas culturais em português no momento, na internet e muito provavelmente fora dela (o que fizeram com a Bravo foi uma grande maldade).

A “nova onda” de escritores tem seu lado positivo, pois instiga e encoraja a todos a escreverem. Talvez ainda não seja a geração que vá produzir novos grandes clássicos nacionais, mas já é o bastante ser uma geração que parece ter recuperado um pouco a misteriosa “vontade de escrever”.

Produzir, e muitas vezes reproduzir é necessário para gerar artistas com maior talento e profundidade. Uma das coisas arraigada na cultura brasileira é uma mania de perfeição as avessas: se você não é capaz de fazer uma grande obra, é melhor deixar de fazer qualquer obra.
Isso me parece presente não só em letras, mas também em muitas outras áreas, como no empreendedorismo e em engenharia. Este pensamento também gera o “fenômeno do medalhão”, em que somente pessoas já reconhecidas e tarimbadas podem ser competentes. Basta observar onde os agentes, em esportes, engenharia e até música e literatura, costumam investir dinheiro no momento de crise.

A ausência deste pensamento é um dos fatores que faz os EUA serem um dos grandes celeiros de idéias da atualidade, mesmo gerando uma boa quantidade de obras de pouca qualidade. Por aqui, é melhor produzir e deixar o mercado e o tempo decidirem o que vai sobreviver, o que é melhor. Aqui as pessoas até te levam a sério, quando você afirma que vai derrotar uma IBM ou escrever um grande clássico.

Talvez um segundo fator chave para o florescimento de idéias nos EUA é a mistura étnica e social construida neste país devido a imigração. A imigração no Brasil está recomeçando agora, após longa pausa, com a vida de coreanos e chineses para o país. Se estes tiverem o apoio social do governo, como boas escolas e condições básicas de saúde, talvez acabem revelando várias pessoas criativas nas artes. O choque cultural é capaz de produzir bons escritores.

Vamos ver. Eu tenho certeza que logo teremos ótimos livros nacionais com boa vendagem, além daqueles escritos por celebridades como Paulo Coelho (que eu particularmente não gosto, mas parece ter conquistado amplo apoio de leitores do mundo inteiro). O próprio Digestivo Cultural e o Na Cara do Gol já se revelam cadernos de cultura muito melhores do que a maioria que eu li nos últimos 10 anos.

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