O MAIS IRRITANTE?

A história de Ricky Williams
parece que saiu de um livro de intrigas e mistério. Ricky Williams jogou futebol americano profissional chegando a liga como jogador sensação depois de ganhar o prêmio de melhor jogador colegial do ano, o Haysman Trophy pela Universidade do Texas em Austin. Eu estava estudando por lá enquanto ainda jogava pelo time da universidade. A maior surpresa era que além de ótimo jogador, ele era capaz de articular minimamente os seus pensamentos e sempre foi um bom aluno. Na liga de futebol americano isto é um grande diferencial.

Em seus primeiros anos jogando pelo New Orleans Saints, apesar de um contrato padrão para o melhor jogador que o deixou rico, ele nunca pareceu muito empolgado com a idéia de futebol profissional. Aceitou em parte porque gosta de jogar e em parte pela grana (US$ 2.4 milhões por ano). Só que o time dos Saints era péssimo e ele se machucou várias vezes durante suas temporadas por lá. Depois de temporadas razoáveis, foi contratado pelo Miami Dolphins, e por três anos jogou batendo os recordes de jardas da liga seguidamente. Tanto que todos acreditavam até num possível campeonato para os Dolphins em 2004, após um longo hiato em se qualificar até mesmo para as finais.

Mas Ricky Williams pensou diferente. Depois de ser pego em antidoping pelo consumo de maconha pela terceira vez, o que acarretaria suspensão por 4 jogos e um anúncio público do problema, resolveu deixar o futebol americano. Muitos jogadores consomem maconha na NFL, isso não é novidade. A maioria é cuidadoso para não ser pego no exame. Não foi este o caso. Mas a decisão mais surpreendente veio faltando algumas semanas para o início da temporada: ele estava abandonando a carreira, e se aposentando aos 27 anos, no auge de sua carreira e fama, e deixando de ganhar US$ 15 milhões pelos próximos 3 anos.

Este anúncio caiu como uma bomba e sepultou as chances do time de Miami. As razões apresentadas por Ricky Williams foram insatisfação profissional, vontade de experimentar liberdade, e a desilusão com seu próprio dinheiro e fama. Fãs e analistas esportivos condenaram o jogador, tachando-o de ladrão, por “roubar o dinheiro dos fãs”, e de traidor de seus companheiros de time. Após o anúncio ele foi para Australia morar em um acampamento, que custa 7 dólares por dia, e passava o dia lendo (segundo ele, leu mais de 30 livros em alguns meses para descobrir quem ele era), fumando maconha e explorando a natureza. Voltou aos Estados Unidos, e resolveu cuidar do corpo e da mente, e estuda Ayurveda, a medicina herbalista indiana, e faz yoga e meditação na Califórnia.

Para quem achava que no fim das contas, ele teria saído de tudo ainda rico, no fim do ano passado, em uma decisão surpreendente, a corte da Flórida julgou que ele deve pagar US$ 8 milhões por quebra de contrato. Isto foi mais dinheiro do que ele arrecadou em toda sua carreira. Em sua última entrevista (veja o link acima), ele surpreendeu o apresentador afirmando estar bem mais feliz, mesmo sem ter um centavo, e diz não estar indignado com fãs e companheiros de time que até hoje tem um profundo ressentimento, pois eles tem razão. Em entrevistas posteriores e anteriores, já afirmou que “a opinião dos outros não vai determinar o que eu faço ou deixo de fazer. Não adianta ser infeliz, e agradar a todos. É melhor ser só, mas satisfeito.”

O que surpreende nessa estória toda não é a reação ou saída de Ricky Williams do esporte. Todos sabiam que isto aconteceria uma hora ou outra, pois mesmo na Universidade do Texas ele já expressava seu descontentamento parcial com o que vislumbrava ser a vida de um atleta profissional. Ele também sofre de “Social Anxiety Disorder”, uma daquelas neuroses identificadas nos EUA, que o faz se sentir desconfortável em público. O surpreendente mesmo foi a reação de articulistas, repórteres e formadores de opinião da televisão.

Pela primeira vez, quando confrontados com alguém que, seja lá por que razão for, não sente muitos remorsos, e nem tristeza por perder todo seu dinheiro, fama e sucesso em público, a análise que sempre resurge é: “um drogado egoísta, incapaz de compreender o melhor da vida”. Infelizmente, os fatos indicam o contrário. Enquanto envolvido no esporte, Ricky Williams foi sempre um dos grandes modelos para todos jovens, inclusive mantendo uma fundação para educação de crianças pobres, e partcipando de programas para estímulo de leitura e conclusão de estudos para desportistas universitários. Fora seu “problema” com maconha, que na NFL é considerado coisa leve, dada a altíssima incidência de uso de cocaína e esteroides no esporte, Williams articulou bem os pontos negativos de sua carreira, e celebridade.

Por mais incrível que possa parecer, ele jogou futebol americano para conseguir uma bolsa para tirar um diploma em educação. Só que ele jogava excepcionalmente bem, melhor do que conseguiram prever na sua carreira de segundo grau. Pelo que diz, com a pressão para se conformar com o que “todos” fariam em sua posição, aceitou ir para NFL e ganhar milhões e jogar futebol. Gosta do jogo, mas detestou as obrigações da fama, como ser ditado o que vestir, onde estar, o que falar, e as consequências do dinheiro, como vários amigos pedindo dinheiro emprestado e pessoas que nunca falaram com ele se apresentando como grandes colegas.

Talvez, o que este caso venha expor seja justamente o nível de catequização social que a mídia faz. Quando alguém por experiência própria sente a infelicidade e solidão do estilo de vida pregado pela teve, pela ESPN, pelas revistas, a reação do meio cultural não é tentar descobrir os pontos de vista úteis desta angústia. Pelo contrário, a reação é atacar e destruir qualquer resquício de validade que esta idéia possa ter. Eu ouvi no rádio que nos EUA, uma pesquisa demonstrou que 70% se dizem insatisfeitos, e estariam realizados e felizes se ganhassem o dobro do que ganham. Ou seja, o cara que ganha 15 mil acha que felicidade é 30 mil, e o cara que ganha dois mil acha que é quatro. Isso na sociedade mais rica do planeta.

A sociedade de consumo não ataca somente através do dinheiro ou da promoção do estilo de vida “ricos e famosos”. Ela aparece também de forma sutil em outros aspectos da sociedade. Um exemplo, são o consumismo por “idéias intelectuais” ou por notoriedade. Quantas pessoas não vemos hoje, que mesmo estando infelizes e confusas com sua própria vida, continuam a pregar as idéias que as mantêm naquele estado? “Não produzir” é visto como a derrota do ser humano, como uma grande vergonha. Muitas vezes aqui em Berkeley, eu já ouvi de alunos que é melhor “reproduzir alguma idéia” do que deixar de publicar. Ou que, uma carreira deve seguir uma sequência bem definida de passos para sua felicidade, sucesso e reconhecimento. Muitas vezes também já ouvi muitos alunos reclamando de solidão emocional e intelectual, frustração, falta de empolgação, mas quando questionados se estariam dispostos a trabalhar de forma diferente ou tentar algo novo, a resposta é sempre negativa.

Qualquer sistema incute um medo muito grande para que seus membros sequer pensem em desviar-se dele. Um amigo me disse uma vez, “É melhor ser parcialmente insatisfeito e frustrado, e ser professor do MIT do que tentar descobrir o que incomoda e não ser ninguém”. Eu sempre questionei a validade deste tipo de pensamento. Quando algo não satisfaz, você deveria deixar de fazê-lo. Em geral é boa política terminar o que se começa, mas se nem isso você aguenta fazer, deixe-o pela metade, e sofra as consequências. É melhor isso, do que se imaginar aos 50 anos infeliz, frustrado e confuso. Porque lá, você ainda tem que carregar o piano de toda a moldura que você montou para sua vida, para exibir para a platéia.

Infelizmente, a nossa sociedade não evoluiu uma consciência coletiva do bem estar físico e psicológico de todas as pessoas. A lei universal dos direitos humanos deveria pregar que todo “homem tem direito ao bem estar físico e psicológico acima de todas as coisas”, pois esta sim é a verdadeira e única liberdade. Não ter o tempo e a oportunidade de descobrir seus medos, desejos e paranóias, e poder trabalha-los para se tornar uma pessoa mais saudável é um grande crime. Cria uma sociedade de pessoas solitárias e neuróticas, forçadas a decidirem a todo momento “qual o meu próximo passo”. Muitas vezes, acabamos fazendo o que se adequa melhor a expectativa dos outros, por não saber quais são os nossos próprios e verdadeiros sonhos e desejos.

Um amigo que conheceu o Rio de Janeiro, e estuda aqui, me revelou depois da viagem que “aquelas tinham sido as melhores férias da vida dele”. Ele tem muito sucesso por aqui, em sua carreira e também fazendo coisas artisticas fora da carreira. Perguntei porque, já que sempre imaginei que fazendo o que gosta tanto, se sentiria bem feliz. Ele me respondeu que nunca riu tanto, e teve tanto tempo para pensar sobre a vida e estar em contato com a natureza, como no Rio de Janeiro. Me parece que no fim das contas, ter amigos, falar besteiras, nadar no mar, aproveitar o sol, e cuidar um pouco da saúde são certamente tão ou mais importantes quanto aspirar fama e fortuna. Pois o maior perigo é aspirar uma coisa esperando algo em troca (fama e/ou fortuna esperando felicidade), e chegando lá encontrar outra.

Como meu professor de estatística gosta de dizer, “vá viver um pouco, beber um café, se divertir. Se divirta profissionalmente também…”. Num café, uma vez, deixou escapar “infelizmente o nosso departamento já cortou o barato da diversão com essa corrida louca”. Mas se corrigiu logo depois “…ainda é um grande departamento”. O nosso condicionamento é muito difícil de mudar. Mas mude!

Leave a Reply