Ter autocrítica é muito importante. Afinal, sem um pouco de autocrítica não nos aprimoramos. Seja em ser um bom pai, seja em ser um profissional melhor. Creio que o senso crítico, de autocrítica já salvou muita gente da rúina e de situações embaraçosas. Imagine você ser aquele indivíduo que apresenta uma idéia supimpa numa reunião de trabalho, para depois ser o foco das piadinhas no coffee break. Ou ainda, ser aquele pai que propõe atividades “criativas” para o filho, só para tornar o pobre menino em motivo de chacota na escola. Ou ainda, o infeliz sujeito que decide mudar o visual, e recebe pelas costas o apelido de “escândalo laranja”. Sim, um pouco de autocrítica certamente nos salva de tais situações.
A cultura intelectual enfatiza a autocrítica como mecanismo de proteção da qualidade das idéias. E ainda bem que faz isso. Quem gostaria de estar no comitê de seleção de um congresso que recebesse milhares de artigos com idéias hediondas sem pé nem cabeça? Não haveria número de revisores que desse conta. E o pior, no longo prazo, não haveria desenvolvimento intelectual, maturação, pois os indíviduos criativos não refinariam sua habilidade. Do professor, ao seu colega de classe, ao amigo do bar mais sabido, todos são canais para trazer o seu senso crítico, e de autocrítica a tona, e para refina-lo, e tornar você mais qualificado, mais entendido, mais hábil. O hábito de ler clássicos, construir uma bagagem, é também para isso. Diria que em muitos casos principalmente para isso. Afinal, mesmo depois de compreender com clareza a base do cálculo, aqueles que gostam de cálculo procuram os clássicos para se aprimorarem. Ou ainda, mesmo após dominar computação o suficiente para programar suas próprias idéias, cientistas da computação buscam os clássicos para aprender um estilo, uma forma.
Por todos estes motivos e muitos outros, a autocrítica é a essência dos homens que fazem sua marca, que deixam idéias que se sustentam pelos séculos. Uma dose de sorte mística, para nascer com talento sobrehumano; muito trabalho árduo motivado pela autocrítica, para continuamente se refinar, se construir; e a absorção dos clássicos, das referências , para construir a base a partir da qual se constrói a própria capacidade e especialmente a autocrítica são fatores determinantes na formação dos indivíduos competentes, hábeis o suficiente para sobreviver a sua propria temporariedade.
Como se vê, a autocrítica, o senso crítico, é o caminho, o mecanismo que permite a alguns chegarem ao Olimpo e a outros darem a meia-volta antes de perderem tempo e sofrerem embaraços e vergonhas que os marcarão para sempre. Imagino que deve haver algum professor que já deve ter dito que “O homem inteligente é mergulhado em senso crítico, e tem como espada sua própria autocrítica”. Pobre dos indivíduos que perdem energia e juventude, sem muito senso crítico, e se tornam objetos de rídiculo social ou intelectual.
Certo? Talvez não. É empiricamente não verificado. É minha experiência ao encontrar e trabalhar com cânones de minhas áreas de trabalho que os homens que evadiram o tempo, que sobreviverão a temporariedade não tem a autocrítica como espada. Sim, tem um senso crítico forte, e procuram não propor ou evidenciar criações ou idéias patentemente estúpidas. Mas por muitas vezes, expõem, e argumentam por idéias infantis ou sem futuro. Por muitas vezes parecem suspender o senso crítico, e oferecem conceitos descabidos e mal-acabados que são esquecidos somente pela fama e reconhecimento do autor. E muitas vezes persistem em pensar errado, em se apegar a coisas que alguém com um senso crítico decente jamais perderia tempo se apegando.
Alguns exemplos clássicos foram Boltzmann com sua idéia do mecanicismo estócastico como aproximação da dinâmica dos fluidos, idéia central que veio a motivar Einstein em suas obras primas, e o próprio Einstein que negou até o fim da vida o relativismo quântico. Exemplos mais próximos do dia-a-dia: um indivíduo que acreditou numa caixinha de computador com programinha chamado DOS; outro que resolveu fazer a estatística de indicadores para analizar pesquisas de opinião sobre transporte público, uma idéia aparentemente besta e irrelevante; e meu orientador que resolveu colher os dados inúteis de transporte que estavam sendo jogados fora, numa caixinha no primeiro andar do prédio, só para ver no que dava. Um outro exemplo também foi o indivíduo que fez uma pergunta estúpida, o que acontece se linhas paralelas se econtram no infinito. Este foi incluisve motivo de chacota de Gauss, um dos grandes da matemática.
E por incrível que pareça em todos estes casos, surgiu algo novo, diferente, bonito. E inesquecível. A capacidade de brincar como uma criança, sem muito senso crítico, é justamente o que diferencia uma pessoa mais criativa daquela que meramente carrega cânones. Obviamente todos temos que ter bagagem, correto? Nem sempre. Ramanujan, o maior matemático indiano de todos os tempos, e um dos matemáticos mais geniais do último século, aprendeu a matemática que sabia num livro horripilante de segundo grau. Passou a brincar com a matemática. E descobriu algumas das fórmulas mais lindas da história da matemática.
Estas podem parecer exceções, golpes de sorte. Homens que nasceram com mais mística do que aquela assinalada ao sujeito médio, e portanto puderam agir assim, e galgaram os lugares mais altos do olimpo. Na raiz deste pensamente é que se econtra a própria implosão da idéia de autocrítica e crítica que a sociedade, e especialmente, os jovens mais inteligentes tanto se apegam.
Em primeiro lugar, a maioria destes homens, e de vários outros que já conheci pessoalmente, de prêmios Nobel que invetaram o transistor, ao maior probabilista vivo do mundo hoje, sempre me pareceram gostar mais de brincar, de fantasiar do que de balizar sua idéia com a opinião de outro, ou com opinião própria. Este probabilista, eu já vi rabiscar umas coisas no quadro só de brincadeirinha, e daqui a pouco surgiu uma idéia sensacional. E muitas vezes nos corredores de Berkeley, ouço, e já propus e para minha surpresa sendo ouvido, idéias sem embasamento algum, sem estudo cuidadoso, sem cânones e bagagem para prover força. O que se chama comumente de palpite, idéia de gerico, um chute, ou peidada. Idéias estas que se em sua maioria foram sozinhas para a lixeira, em vários casos geraram surpresas, e artigos interessantíssimos.
Minha experiência é também que são as pessoas menos qualificadas que sentem que a autocrítica ou a crítica exacerbada irá se revelar o divisor de águas, o fator determinante para se criar algo de valor. As pessoas mais qualificadas, ou aquelas consideradas modelos, raramente pensam assim. Sim, criticam ferozmente idéias que consideram absurdas. Mas mesmo assim raramente deixam de defender suas próprias besteiras. Me parecem pouco preocupados com o que alguém vai considerar besteira ou não.
Listo a seguir conselhos de alguns dos famosos de Berkeley, da IBM, da música, da espiritualidade e das artes que já encontrei, como prova do pensamento estapafúrdio dos mesmos: se divirta fazendo o que você quer fazer, não se preocupe se é bom ou ruim; não leia cânones e artigos demais, obviamente sem ler de menos, mas evite a qualquer custo ler demais; tenha um caderno para escrever besteiras, anote todas suas besteiras e siga com elas; faça o que você quer fazer e não dê ouvidos aos outros, claro arrumando um salário; foi pura sorte eu ter pensado nisso e ganhar o Nobel, pura sorte mesmo; aprenda o que é interessante, se desenvolva, mas se for para ser monótono, largue e aproveite a vida; não tenha idéias monótonas; faça sempre o mais fácil, deixe o mais díficil para os outros; não adianta querer saber matemática, é perda de tempo saber demais; a medida que você for precisando, vá aprendendo; pense em idéias, suas, de outros, passe mais tempo as contemplando e menos tempo lamentando os artigos dos outros; procure boas analogias; nunca diga não; se divirta sem pensar muito no que os outros pensam; se o Blackwell (emérito daqui) falar mal aí sim você larga, quer dizer eu continuei nos fins de semana só por estar afim, não deu em nada; 90% não vai dar em nada, mas proponha assim mesmo; almost surely, all ideias are possible; misturar A com B sempre me pareceu uma idéia de gerico; se fosse deixar de fazer porque aquele cara me deu B, seria hoje um engenheiro com 4 filhos. Nada mal.; Foi o pior chute da minha vida; Sempre que puder leia um pouco, para arrasar com o livro; Mude um axioma, e assim surgiu o universo; a melhor parte foi enquanto eu buscava respostas, foi a melhor época da minha vida; ….
Estas coisas foram ouvidas mesmo. E a quantidade de discussões que já estive envolvido em que os presentes chutaram aproximadamente suas idéias, mal pareciam saber do que estavam falando, é muito grande. A quantidade de besteiras ou idéias que se provaram erradas mencionadas por estes indivíduos é maior ainda. Mas vários deles são os grandes canônes atuais, e alguns já entraram para história. Talvez, o importante seja mesmo ir tentando o que se gosta. Com um mínimo de senso crítico, mas sem se preocupar muito com os resultados. Me parece que o “grande” em ser um “grande xxxxxx” para muitas destas pessoas poderia até ser uma preocupação futura, mas não era sua ocupação principal. Deixe o universo queimar suas idéias e transformar seu corpo em cinzas. Não precisa você mesmo fazer isso antecipadamente. Continuamente faça o que gosta, rasgue o que você acha que tem que rasgar, mas também grite suas idéias idiotas aos quatro ventos. Aquelas que você mais achar divertidas valem a pena o seu tempo. E quem sabe, uma delas não entra para história… Senão, ao menos você terá se divertido ao invés de se lamentar por nunca ter a chance de se tornar um cânone.
PS: Ah sim, estes cânones sempre criticam muito as idéias dos outros. Mas quando querem sabem ser gentis.
PS2:A maior mentira do mundo é que Gauss leu muito para fazer sua matemática. Depois de estudar seus cadernos, parece que a conclusão é que ele leu o suficente, mas praticou bastante suas idéias bestas. E tinha receio de publica-las. Depois veio a dizer que não seriam compreendidas… Mas pode ter sido mesmo medo do ridículo.