CONSPIRAÇÃO
Estava lembrando dos discos do Cole Porter que estão lá em casa, no Rio de Janeiro. Ouvi quando eu era bem pequeno. Cole Porter e Nat King Cole sempre tocavam na vitrola. Estes e vários clássicos do pop indiano. Algumas vezes uma sítara clássica do disco favorito do meu pai. Depois desta fase digamos clássica, passei a conviver mais com as músicas que minha empregada colocava lá em casa. Até que não foi ruim, porque ao contrário da maioria das empregadas, a lá de casa gostava de Legião Urbana, Plebe Rude, Tim Maia, Michael Jackson e outros mais. Vai ver daí peguei gosto pelo Jackson, pelo rock - que antes para mim era só Beatles, numa bolacha arranhada do Seargent Peppers - , e por Tim Maia, fase pré-clássica. Omiti por descaramento, a minha fase de ouvir Pluct-Plact-Zoom e Balão Mágico, como toda criança da minha geração que se preza.
Esta viagem musical como todos sabem bem termina em uma fase longa de amor ao rock alternativo, que aos poucos foi sucumbindo ao jazz e aos clássicos, misturados agora com world music, que é tudo que é música e não é exatamente pop ou rock. Hoje em dia não sei por onde meu gosto flana, mas voltei a me lembrar de Cole Porter. Acho que está na hora de comprar alguns cds. Meu pai era daqueles que vicia em determinados músicos. Tinha todos os discos de Cole Porter e Nat King Cole. Para ele, Nat cantava tão bem, tão bem, que poderia muito bem cantar sem ter aqueles instrumentos atrás acompanhando. Tempos depois ouvimos uma canção recuperada de Cole, durante uma gravação, em que cantava sem nenhum instrumento, e era simplesmente sensacional.
Mas porque estou viajando por estas obras musicais? Você deve imaginar algum propósito, alguma intenção construtiva. Realmente não o há. Só gosto de relacionar as minhas memórias a determinadas fases musicais. A música diz muito mais de quem somos do que parece. É muito melhor saber que música que você gosta, do que as pessoas que você já namorou. É até possível saber da sua preferência e orientação sexual, sabendo das músicas que você gosta! Revelamos nossos gostos musicais a revelia, sem pensar nestas consequências.
Uma cantora que vim a ficar muito fã, apesar das gravações ruins e remasterizações somente razoáveis, foi Ella Fitzgerald. Depois vim a descobrir que enquanto embalava no berço, ainda bebê, Ella ficava cantando enquanto minha mãe estudava português e meu pai corrigia provas da faculdade. Depois, mais pirralho, arranhei o amado disco, que ele nunca repôs. Eu achava aquelas bolachas pretas e lustrosas uma beleza. Depois que cresci o suficiente para aprender a puxar uma cadeira e mexer na vitrola, adorava acelerar e desacelerar discos. Gostava também de toca-los ao contrário. Foram estas atividades que destruiram algumas preciosidades do meu pai, que só mais tarde, sem nem se lembrar delas fui redescobrir.
Da MPB, lembro que minha mãe adorava o Erasmo Carlos. Ela achava ele muito animado e engraçado. Roberto Carlos também passava ali pela minha casa. Eu detestava Elis Regina, mas meus pais gostavam dela. Até hoje não entendo quem gosta de Elis Regina. Tenho traumas. Lembro da fase Fafá de Belém, os peitões da constituição. Das coisas boas, alguns discos de um Milton Nascimento mais novo, com uma voz que sempre me deixava melancólico - na época, melancolia era motivo para ir subir a mangueira ou brincar com meus peixes, isso até aparecer minha irmã, Maria Bethânia, colaborações de Tom Jobim, e alguma coisinha de Gal Costa. E obviamente, o indomitável Caeatano Veloso, que meus pais achavam ser o melhor músico de Bollywood brasileiro. Mais de uma vez, ouvi que Caetano poderia ter sido um daqueles heróis de Bollywood, só que cantando ao vivo. Acho que meus pais nunca souberam de suas tendências, digamos, femininas.
Ivan Lins, Toquinho e até Daniel Azulay sempre apareciam lá em casa, mais ou menos na hora do carteiro chegar. Gostava do carteiro. Até hoje sinto falta de receber o The Hindu aqui em casa. Ele era feito de uma folha bem fina e macia, pois tinha que ir da Índia ao redor do mundo. Era tão fino que eu fazia bolinhas de papel que flutuavam ou eram queimadas pela luz do sol. E era tão macio que eu dormia juntinho do cheiro de jornal.
Por incrível que pareça, só fui conhecer Chico Buarque e o resto da turma da MPB quando estava na UFRJ. As pessoas falavam, nunca ouviu construção? Não é possível? E isso e aquilo? Nunca pensei em perguntar, ouviu Night and Day? Achava que era natural que tudo aquilo fosse ouvido por todo mundo. Só depois fui perceber a educação musical involuntária que acabei recebendo. Pois bem, chegamos mais ou menos ao fim de uma parte de minhas reminiscências musicais. Omiti alguns momentos que são do tipo melhor esquecer, como ter ouvido e gostado de Menudo e pedir de presente de aniversário a luva do Michael Jackson. Pois é, este texto está meio inconclusivo. É bom não concluir as coisas. Pensem aí sobre suas reminiscências musicais. Provavelmente são mais interessantes que todas as outras coisas que vocês consideram interessantes sobre si mesmos.
Do título conspiração, era porque acho que da mesma maneira que o mundo conspira para termos situações como a eleição de um Garotinho, as vezes ele conspira para conhecermos coisas preciosas, como a música de Nat ou da Ella ou de Latha Lakshmi. As vezes, devemos culpar menos a situação, como certas pessoas andam fazendo, e curtir mais a sorte de ter tido a oportunidade que tivemos, como uns andam esquecendo. Pronto, fugi do texto habitual sobre o Mar de Lama.
February 15th, 2006 at 10:32 am
Na minha infancia era apaixonada pelo Rick dos Menudo!