JOGATINA

“He gave me too many orgasms” - L., numa discussão.

Muitas semanas atrás, umas três ou quatro, me deparei com um incidente que me fez matutar sobre a tal onipresente pessoa urbana moderna. Pessoa, porque se eu escrevo homem como Machado fazia, serei execrado por metade da população politicamente correta. Tá bom, metade da população dos dez por cento que sabem o que quer dizer a palavra polcor. Mas antes de voltar no tempo, vou lembrar do incidente de uns dias atrás que me remomorou estas memórias que bem que poderiam até continuar nos arquivos mortos.

Como sempre, até porque não descobri como se tira o timer da tevê do dono do quarto, acordei com a televisão estalando as sete da matina, no noticiário da CBS ou ABC, nunca sei qual é qual. Noticiário matinal é aquela geléia de fofocas, tipo Brad encontra calcinha de Billy Bob e resolve adotar nova criança, com reportagens engraçadinhas, do tipo repórter se dispõe a promover ex-big brother jogando human bull’s eye (aquele em que o carinha senta numa cadeirinha enquanto outro tenta acertar o bull’s eye), com notícias locais, e a inescapável dica de moda. Bom, acrescente-se um outro novo quadro a esta lista, uma mesa redonda sobre “opinião de alguma coisa”. Então neste dia acordei com uma mesa redonda entre dois âncoras, que convenhamos em geral não sabem opinar, e duas psicólogas que discutiam, adivinhem, “players”.

Para quem não sabe, “players” são os homens que fazem joguinhos com mulheres. O típico cafajeste, mas em roupagem mais moderna. Sem a elegância do cafajeste, porque no mundo moderno não podemos ter elegância. Elegância requer um certo andamento, requer maturação. Mas então, no programa uma das psicólogas atacou os tais “players”, prevenindo que as mulheres que se envolvem com eles e esperam relacionamento de longo prazo, etcetra e tal, irão se decepcionar. E que ela mesma cuidou de várias mulheres que tinham compulsão por estes tipos, na vã esperança que iriam converter o pobre coitado, ou feliz diabo, dependendo do ponto de vista maniqueísta. Já a segunda psicóloga defendia judiciosamente o envolvimento com “players”, dizendo que a mulher moderna não quer relacionamentos “plain vanilla”, onde você já sabe que o homem te ama e tudo mais, o importante para a mulher independente é o jogo. Dizia também que os players que eram jogadores e “usavam” as mulheres poderiam ser assim por falta de modos, mas que “gorgeous and fabulous” women deveriam se envolver com “power” love.

Isso em dois minutos, enquanto eu abria os olhos. Por alguns momentos pensei estar tendo um sonho ruim. No minuto seguinte, os dois âncoras, que nem lembro que opinião deram, puxaram um slide, isso aí, que dizia, como identificar players, com aqueles bullet points do Power point: Don’t plan ahead, Don’t open up to women, Sends Mixed Signals, Is afraid of commitment, e tinha mais um. Bom, em um minuto terminou o tal quadro, com todos balançando a cabeça contentes que informaram o público feminino, a quem boa parte do programa matinal se dirige. Por algum motivo, isso me lembrou um incidente que mencionei ao Rafael Lima, no nosso encontro tradicional. (Ah sim, continuo devendo os dois incidentes, do Fidel em NYC e da feminista de fila a vocês).

Mas a eles, naquele fatídico dia, contei que aqui em Nova Iorque, cerca de dois meses atrás, uma mulher contava para uma roda de pessoas - ou melhor, uma roda com algumas pessoas e alguns intelectuais - que acabara de terminar com seu novo namorado. Os indivíduos que conheciam tal figura ficaram um pouco estupefatos, pois imaginavam que o casal parecia feliz e tudo mais, apesar de uma certa inclinação intelectual dela que a fazia analisar tudo que se passava entre os dois. Palavra de um dos membros em uma fofoca sadia depois de um chopp. Pois bem, a razão para separação apresentada pela nossa colega foi que “ele me dava muitos orgasmos”. Depois se pos a explicar que não gostava de homens que davam poucos orgasmos a ela. Não, não era isso. Mas o homem que dava muitos orgasmos acabava se tornando uma espécie de “homem fácil”, que “não precisava ser conquistado”, “que tirava o prazer do orgasmo” (!).

Obviamente, todos nos silenciamos abismados com a confissão. Isto aí é a pessoa urbana moderna. Chicoteada por intelectuais, corre para ter orgasmos e quando os tem em demasia, liga a tevê para descobrir que deveria mesmo é se envolver com um player, e não com o “homem que lhe dá muitos orgasmos”. Nunca pensei que fosse ouvir isso na vida. Poderia até ter aceitado, ele era meio entediante na cama. Ou ainda, nós dois éramos chatos e intelectuais. Ou ainda, ele era frouxo. Ou o mais clássico, ele me traiu com a minha prima Luisa.

Bem, deixo vocês sem mais, para pensarem se não estão pensando demais nas coisas… Se não estão abandonando uma vida feliz, por uma vida de shopping intelectual. Pensar demais dá nisso. Abandonar os “orgasmos demais”, provavelmente sugerido por algum manual de estilo, para viver de orgasmos da cabeça… Quando possível. Não é uma crítica, é só genúina incompreensão e surpresa. Um dia entenderemos a cabeça das pessoas urbanas modernas.

4 Responses to “JOGATINA”

  1. Sonia Says:

    Um dia entenderemos a cabeça das pessoas urbanas modernas.
    Depois dessa história não sei se vai ser possível. Estou muito velha pra tentar, deixa eu com minha cabeça meio antiga.

  2. claudia Says:

    ô meu Deus, essa moça deve estar rindo até agora…
    o absurdo dos tempo modernos é que qualquer absurdo é considerado.
    que delícia. Moderno é achar (ou tentar desesperadamente) que qualquer merda merece consideração e análise. Essa moça vingou-se de uma “vezada” só de todos os homens da mesa. (E um vizinho xeretinha, adorável). beijos ram

  3. Ram Says:

    Se vingou metaforicamente… Porque nao me parecia muito feliz. Quanto a qualquer besteira merecer consideração e análise, não é coisa só da “modernidade”, é mais coisa da “humanidade”.

  4. claudia Says:

    modernidade mesmo. bundices ancestrais eram queimadas em praça pública (metafóricamente ou não). beijos pra vc.

Leave a Reply