UMA NOTÍCIA DE SHANGRI-LÁ-LÁ (I)
Havia uma época no Reino Encantado de Shangrilá-lá-lá em que todos reclamavam das grandes coisas. Do corporativismo da grande mídia. Da hierarquia demasiada das grandes empresas. Pois é, Gri, para os mais intimos, tinha grandes empresas, grande mídia e todas grandes coisas. Herança de uma visita de Gulliver, que hoje em dia se tornou Mago e conta de suas caminhadas espirituais, e paga as contas vendendo livros de como fazer omeletes e lê-los.
Bom, mas nesta época, os jovens de Gri, que nem eram jovens pela idade, eram jovens porque nunca haviam sido ninguém, reclamavam todos os dias. Falavam com seus pais e amigos, apontando o dedo para a estátua do Grande Picolé que Aponta Para Cima: olha lá, mais um exemplo do que o corporativismo, a hierarquia faz com a gente. Falavam com gente desconhecida pelo telefone sem fio. Vale um aparte. Em Gri ouviram falar que em outras terras tinham inventado um negócio para se falar a distância. Logo apareceu um menino com duas latinhas ecodegradáveis - Gri era um lugar puro e ecoconsciente - conectadas por um barbante. Virou moda. Melhoraram a tecnologia a ponto do barbante ser fino e firme o suficiente para as latinhas se separarem por kilômetros. Criaram redes de barbantes chaveadas. E obviamente criaram a Agência de Controle e Distribuição de Falar Longe de Gri ou ACDFLG.
Uma das coisas que incomodava muito os jovens de Gri era que pensavam que jamais poderiam ser parte ou liderar uma ACDFLG. Todos os cargos eram por indicação e pensavam que nunca seriam indicados. Porque em Gri o jovem era quase sempre irrelevante. Mal entendiam estes jovens que tal sistema havia sido construído pelos Grandes Velhos com o objetivo de preserva-los do estresse e dar mais tempo para curtir um riachinho ou uma prainha. Que, infelizmente, os Grandes Velhos nunca tinham tido tempo de aproveitar. Os Grandes Velhos nem eram tão Velhos, mas ficaram senis rapidamente porque forçaram seus neurônios em demasia.
Vale uma explicação de como funcionam os cérebros dos habitantes de Gri. Cada neurônio de um habitante de Gri tem vida própria e nome. Os neurônios de cada cabeça conhecem alguns vizinhos e formam bairros e cidades. De vez em quando compram no BrainMart. Tem até aqueles nomes esquisitos, como Robisvaldo. Mas assim como tudo que tem nome, adoram se meter em brigas. Quando trabalham e produzem muito, logo se tornam um império neuronal e querem controlar os outros neurônios. Aí acontecem as guerras neuronais, muito bem contadas por Talkien em seus longos clássicos. Quando um habitante de Gri está sujeito a uma guerra neuronal ele passa a ter dor de cabeça contínua, começa a trocar palavras e a agir sem bom senso. Depois da guerra, os neurônios vencedores, em geral dilapidados de seus exércitos e sociedade, se estabelece e consolida. Não conseguem se reproduzir devido a síndrome de guerra. É fácil identificar um indivíduo que passou por uma guerra neuronal. Em geral, faz questão de aparecer, nunca muda de idéia, gosta de reclamar que ninguém pensa como ele, e apoia indiscriminadamente quem ele acha que pensa como ele. Diz ter se iluminado (quando pensamos menos achamos que estamos iluminados). As guerras neuronais podem envolver mais de um indivíduo, com neurônios saindo e entrando pelos ouvidos e olhos das pessoas. Ninguém percebe porque neurônio é coisa pequena, e em Gri todos só se preocupam com aquilo que conseguem ver. Um dos resultados destas guerras em larga escala era a formação de grupos de pessoas que pensam parecido, como estes jovens que reclamavam.
Os Grandes Velhos ficaram senis rapidamente porque seus cérebros estavam em constante guerra neuronal. Era um Coração Valente do intelecto. Liam demais. Pensavam mais ainda. E a coisa toda só terminava quando só um neurônio sobrevivia. Em geral, cansado e sozinho, o neurônio cometia suicídio. A sorte dos Velhos era que em Gri ninguém precisava de neurônios para viver. Pessoas sem neurônios só ficavam meio sem cor e falando muito. Mas, com o passar do tempo, a sociedade de Gri passou a atribuir este estado a sabedoria. Então os Grandes Velhos mantiveram suas posições, apesar de no seu estado sem neurônio, desejarem sempre pular, dançar, e pegar um solzinho. Por isso, estabeleciam leis para que os outros pudessem fazer isso em paz.
Na segunda parte deste relato, vou terminar de contar do que acabou acontecendo em Shangri-lá-lá, depois que estes jovens que reclamavam das grandes corporações corporativistas passaram a se encontrar a tarde, e decidiram compartilhar de sua solidão e indignação.