SEXO SOCIAL (II)
Para algumas pessoas, a morte pode ser melhor que o sexo. Para a maioria, o sexo oferece um momento de prazer, enquanto que a morte traz dor, perda e medo. Mas sexo e morte podem ser a mesmíssima coisa. Não estou falando só abstratamente, no plano de idéias. Como vocês bem sabem, gosto de ser prático. A nossa maneira de se relacionar com a vida, influi e é determinante na nossa sexualidade.
Sexualidade para mim tem um caráter muito diferente daquele atribuído pelos programas televisivos e psicólogos de jornal. Vai muito além de como encaramos e aceitamos o ato físico de fazer sexo. Para mim, sexualidade tem a ver com a nossa busca por prazer. Como encaramos a busca pelo prazer. O sexo é uma forma de prazer. Mas conhecer e aprender também podem ser prazeres para algumas pessoas, assim como correr ou cantar. Será que tudo isso é tão diferente assim de sexo? Na tradição indiana, tanto o sexo, como o pensar e o aprender, são encarados com um certo ritual mental, onde a medida que fazemos o ato, observamos o corpo e a mente. A idéia é que esta observação do que acontece com este corpo ao ter prazer, é a chave para se viver melhor, ser capaz de ficar confortável e saudável na própria pele. Segundo esta prática, os vícios de comportamento, e experiências cíclicas, se quebram, abrindo as portas e a nossa cabeça para novas experiências.
Uma das consequências de se observar o que se sente enquanto fazemos amor, é descobrir as sensações do parceiro. É sair do sexo, nível físico, e aproxima-lo mais ainda do prazer da descoberta, de uma intimidade verdadeira. Obviamente que para se integrar ao próximo no momento do sexo, temos que nos aproximar em outros momentos da vida. Realizar descobertas intelectuais e espirituais em conjunto, dividir não só emoções e desejos, mas também sonhos e conhecimento. Senão, não há a menor possibilidade de uma intimidade que vá além da superfície da pele.
Alguns sábios indianos se dedicaram a escrever livros com sugestões para vários aspectos práticos da vida, entre eles a vida em casal, e , especificamente, o sexo. O sexo ou Kama, que é qualquer atividade feita sob a égide do desejo, é uma das quatro grandes classes de atividade humana. A quinta delas é o Moksha, que é a liberação espiritual. Na filosofia indiana, após a liberação espiritual (ou a liberação das prisões da mente), o homem se dedica a uma única atividade: não fazer nada. Ou melhor, ele faz qualquer uma das atividades, mas sem estar sob conluio das ilusões mentais que o fazem sofrer ou se exaltar. Não há dor ou prazer, mas um êxtase contínuo, que acontece dentro do organismo. Versões deste êxtase é o que encontramos ao realizar as atividades nos quatro campos, incluindo Kama.
Segundo estes sábios, portanto, é impossível ser feliz ou ter prazer, sem buscar conhecer o nosso próprio organismo, e aceitar o fato que um dia morremos. A aceitação integral da morte é primeiro passo para uma vida sexual muito mais intensa e interessante. Nem tanto pela variedade de parceiros ou posições sexuais, que ainda são elementos superficiais do sexo, mas sim porque a mente se abre para experiências mais profundas em todos os campos da vida, inclusive no amor. O amor é troca de energia, que é matéria sutil. A percepção desta troca se desenvolve a medida que desenvolvemos o nosso conhecimento sobre o próprio corpo e mente. Existem dezenas de experiências incríveis, que acontecem mesmo, digo por experiência, escondidas no nosso organismo, e que podem ser destrinchadas ao fazer amor. Muito além de um orgasmo ou o silêncio sexual.
O medo da morte se manifesta quando queremos prever o próximo instante. Antecipar o prazer e a descoberta. Mas é justamente o inesperado, como resolver um problema que você considerava impossível a bem pouco tempo, que traz a coleção mais rica e prazeirosa de experiências. Todo prazer advém do inesperado. O que esperamos burocraticamente, se torna chiclete mental. O inesperado exige entrega com inteligência, para observar e se maravilhar com o desenrolar dos momentos. No amor, a entrega só acontece quando temos confiança plena em nós mesmos, porque senão criamos reservas quanto as intenções e motivações do outro (que por via das dúvidas, não deveriam ser fatores para nós). Aceitar o presente, o mundo, e as coisas que ele nos oferece, sem muitas fantasias mentais, é que traz confiança para si mesmo… E daí, se fecha o ciclo. Porque ao aceitar o mundo, aceitamos a morte também. Para mim é por aí, o caminho para uma vida feliz, e para uma vida sexual gratificante e empolgante.
PS: Somente pessoas maduras tem prazer. Pessoas imaturas tem emoções e flashes, mas aquele prazer mais profundo, exige alguma maturidade. O que é maturidade? É simples: parar de ter regras em demasia… E parar de buscar do outro lado, o que só você pode se oferecer. Levei uns 29 anos para descobrir isso.