O CAMINHO DO DHARMA

No gabinete do senhor Júlio Delgado, desaparecem todo o histórico do relatório contra José Dirceu, inclusive as denúncias que não usou em seu parecer. Evento no mínimo suspeito, que depõe contra estes homens públicos. Uma sociedade que assiste passivamente este festival de cafasjestice pagará eternamente o preço de sua inconsequência. Somos nós, pessoas que vivemos o dia-a-dia, que pagamos pela corrupção de nossos governantes.

A corrupção de um homem público não acontece quando ele rouba. Não se inicia quando se envolve em jogos sujos para se manter no poder. Se inicia quando imagina que o cargo público é um direito seu. Quando imagina que ele, homem público, ocupa esta função devido as várias qualificações formais e informais que obteve no decorrer de sua vida. Que é meramente o mérito que determina quem é o rei, e quem é o súdito.

Sim, o mérito é em parte determinante. Mas o homem público de maior mérito é justamente aquele capaz de deixar de lado seus próprios desejos, em função das necessidades da população para quem serve. O homem público não é um mestre, mas um mero servente. Se hoje, menosprezamos o servente, é porque não entendemos que de todas as posições é justamente a mais difícil. O servente sacrifica seu desejo, sua glória pessoal, para servir. Ele é um mero objeto, e seu grande prêmio é o amor daquele para quem serve. Despossuido de paixões, o servente é sempre leal ao seu mestre, mas ao mesmo tempo sempre verdadeiro. Para cada mestre iluminado, há sempre um servente iluminado. E somente a este servente que o mestre, e o universo se curva. Lado a lado ao amor do servente, o poder, glória e fortuna do mestre são mero pó da história.

Para o homem público, seus mestres são sua população, sua nação e seu Deus. A cada cidadão do país, o homem público se curva e serve com lealdade e dedicação, sem em um único minuto pensar em sua glória pessoal e fama. Em uma sociedade elevada, estas, a glória pessoal e fama de um homem público, decorrem naturalmente de seu serviço excepcional. O nome da Índia em sânscrito é Bharat. Bharat, irmão de Rama, é o ideal do homem público. Tal sua conduta e percepção do caminho ético e correto, que ele recusa aceitar o reinado, injustamente seu, sacrifica seu amor pelo irmão se separando dele, e reina por 14 anos enquanto o rei de fato, Rama, conclui seu exílio. Nos 14 anos, como servente de seu rei, e portanto mestre, se recusa a viver no palácio, vivendo como um heremita - pois um servente jamais deve viver acima de seu mestre - e trabalhando incessantemente para governar mantendo a justiça e ética do reino (dharma) . Os súditos de Ram, mestres do rei segundo a tradição indiana, eram também mestres de Bharat. Ao fim do serviço público, o grande prêmio de Bharat são as lágrimas e o abraço afetuoso do seu irmão, alem das reverências da população.

O ideal do homem público pode parecer removido da realidade. Afinal, “ninguém é assim”. Mas justamente este ceticismo barato, sem se estabelecer ideal algum, é que transforma uma sociedade de seres humanos, em um piada de mau gosto. A total ausência de ideais e mesmo de um senso de culpa por não ser próximo a algum ideal, condena a sociedade a corrupção e decreptitude. Todos os grandes homens tem seus ideais e os mestres a quem se aderem para sua conduta e ética.

No Brasil, vivemos em uma sociedade degenerada, onde qualquer ideal é motivo de galhofa, de sarcasmos e ironias, onde a fama é meramente aparecer a qualquer custo. Onde negamos Jesus Cristo, mas contemplamos Carla Perez. Onde qualquer menção de ideal, é logo tachada de impossível. Onde idolizamos a bunda, e dessecramos a família, a amizade, a lealdade e em última instância, a ética. Democracia não é o maior ideal possível para uma sociedade. Tão pouco uma Constituição, que é uma lista de princípios. O maior ideal é a prática cotidiana da democracia, da constituição, da ética, dos valores familiares, da busca pelo conhecimento e pela iluminação. Iluminação não é cheirar inceso e usar LSD, ou ir para uma floresta qualquer e fazer poses de ioga. Nem mesmo é fazer discursos. Iluminação é aderir a verdade e a ética. É cumprir o Dharma, as obrigações de cada um com suas posições na sociedade.

Aderir a honra, a verdade, a ética e ao amor são as verdadeiras e únicas obrigações do homem. Rejeitar as paixões, vaidades, e o auto-engrandecimento são as obrigações de um homem público. Há muito que vejo que no Brasil não temos nem mesmo um patamar imaginário de correção e ética que fingimos seguir. Na verdade, tristemente, fazemos galhofa de qualquer sociedade que siga este patamar. Jogamos lama em qualquer pessoa que apresente um código de conduta que exija auto-controle e sacrifício.

Enquanto isso, na nossa sociedade, buscamos no sexo, no poder, e na fortuna a única grandeza. Amigos que desejam esposas de amigos sem pudor. Maridos que abandonam suas obrigações, para alegremente encontrar amantes e bebidas na calada da noite. Professores que não se furtam a mudar suas opiniões e a distorcer a realidade para ganhar notoriedade e reconhecimento, e se relacionam sexualmente com alunos e alunos em troca de favores. Esposas que menosprezam o seu dever a família, e se atém a conquista de bens materiais ou a satisfação de paixões de momento. Músicos que ao invés de compor músicas que exaltem a alma humana, equacionam a vida humana a de meros animais, transformando a foda, a penetração, no objetivo último da espécie. Sim, estou aqui exagerando as tendências que observo na nossa sociedade. Mas não estamos longe disso.

Quando o sacrifício silencioso se torna atividade rara, e o auto-engrandecimento a função principal do homem público, é sinal da decadência completa da sociedade. Quando as pessoas não se atem a moral e costumes no seu dia-a-dia- respeitando os outros, e tratando a todos com carinho e educação - é sinal de que uma sociedade de homens se tornou uma selva de animais que agem por instinto. Quando esquecemos o sentido histórico das nossas ações, seus efeitos sobre a sociedade, e iludidos por ganância, recheados de arrogância, pisoteamos os outros e seus direitos, é sinal de que estamos vivendo um verdadeiro inferno. O paraíso e o inferno se encontram aqui mesmo.

Na figura de Ravana, do Ramayana, se encontram algumas das características mais comuns do homem público brasileiro de hoje. Na maioria das vezes tem diploma, teve oportunidade de se educar. Ravana era um mestre do Vedanta. Muitas vezes, até realizou uma ou outra obra de valor. Ravana realizou muitas proezas. Mas, sem âncora moral e cegado pelo próprio poder, agem sem ética, e sem sentido de verdade. Assim como Ravana, que no auge de sua arrogância sequestra a esposa de Ram, que vem a ser sua queda. Exatamente como nossos homens públicos. No auge de sua arrogância cometem as maiores barbaridades, e utilizam seu próprio poder como justificativa. Ravana dizia, “meu poder e minhas austeridades são maiores que o Dharma, pois este é para os outros”. O nosso presidente diz, “ninguém discute ética comigo”. Ou um professor qualquer diz, “meu conhecimento me garante o direito de menosprezar os outros”.

Pior, sem guias éticos e morais, a sociedade aos poucos vai se destruíndo. A população segue os exemplos de seus líderes. No Brasil, o objetivo da fama e fortuna, transformou em líderes e exemplos, jogadores, atores e atrizes que usam drogas e levam uma vida promíscua. Enquanto isso, ignoramos os apelos de nossos professores mais iluminados, de pessoas humildes e de bem, e até dos guias religiosos. Uma sociedade que ignora o espírito caminha sempre para a ruína. A realidade é dura e simples. Ninguém ousa mencionar. Nossos filhos vivem sem exemplo. Quantas crianças não assistem desde cedo a sexo na tevê, por ausência de observação dos pais, ou veêm os pais usarem linguajar chulo e vulgar, e fazerem atividades que deveriam ser evitada na frente de crianças, como se embebedar?

Desta massa disforme é que surge o homem público brasileiro. Por isso, não surpreende que incapaz de entender seu Dharma, ele se meta a pensar sempre em como se manter no poder, em reeleição, e nos interesses de seus parentes, amigos e patrocinadores. Tão vulgar é sua consciência moral que nem mesmo disfarça estas preocupações. Que nem mesmo imagina que existe sim, a possibilidade de uma vida ética e elevada, moralmente e espiritualmente. Jamais terá lido do sacrifício e do caminho de um São Francisco ou de um Hanuman. Para os poucos conscientes, o ser humano é sórdido, mesquinho e interesseiro, e portanto ou ele se torna assim, ou fica de fora. Para a maioria, nem mesmo a percepção de sua vulgaridade os acomete.

Se queremos elevar nossa sociedade, devemos começar por mudar nossas próprias vidas e decisões. Uma vida particular ética e elevada é o melhor presente que pode se dar aos filhos, e o melhor que podemos fazer pela sociedade. Os sacrifícios para se preservar a correção podem parecer exagerados, inatingíveis, ou a expressão mais popular de hoje em dia, caretas. Por outro lado, a paz na mente, e o amor que se manifestam numa vida correta, não encontram igual em parte alguma deste universo. E a todos existe sempre a possibilidade de seguir o seu caminho da ética, o seu dharma. Nunca é tarde para começar…

PS: A vaidade e o auto-engrandecimento são o caminho direto para a ruína. Sua e de todos a sua volta. Pois se você externamente recebe algum benefício, internamente viverá para sempre a tormenta de sustentar uma imagem, e sentirá o peso opressor de carregar todos os sangue-sugas que se grudam em gente assim.

Update: Dharma? Zé Dirceu vai escapar de mãos dadas com Eros Grau.

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