CUIDADO COM MORALIDADE
Um caso bem interessante, de um vilarejo indiano, serve para confirmar uma suspeita: assim como uma ONG combate a pobreza, ela depende dela para sua subsistência. Assim, jamais serão as ONGs que irão combater as causas raíz da orfandade, da pobreza, e dos outros males sociais.
O caso é o seguinte, e foi contado por uma colega que trabalhava com ONGs e o governo. Num pequeno vilarejo no Sul da Índia, o governo local decidiu testar duas idéias, a primeira educação sobre sexo - incluindo abstinência e moderação- e a segunda, reativar a noção de Gurukulam, onde crianças vivem com o professor e guia espiritual para o aprendizado. As ONGs internacionais foram terminantemente contra. Inclusive, alguns ativistas afirmaram que a medida era retrórograda, e discriminatória. Que religião não poderia ser um caminho para curar males da sociedade, etc. O plano foi adiante, simplesmente porque o conselho do vilarejo não tinha outra saída. Os dois maiores problemas eram crescimento populacional desproporcional ao crescimento econômico, e ausência de um sistema escolar bem financiado.
Resultado, hoje, seis anos depois, o modelo tem dado certo. As primeiras crianças que se beneficiaram do gurukulam começam a frequentar faculdades, e a natalidade foi reduzida tremendamente. Além disso, a maioria das ONGs teve que deixar o vilarejo, inclusive causando a demissão de alguns indivíduos que trabalhavam por estas organizações, por falta de recursos.
A idéia de um gurukulam para orfãos, como existia antigamente na Índia, está sendo proposta agora, mas sob ataque pesado de ONGs cristãs, que veêm ameaçados seu trabalho de catequese.
Moral da história: uma ONG não é (só) feita de voluntários. É feita de gente que recebe salário e tem aquele serviço como emprego. Por isso, muitas vezes, subconscientemente, ou conscientemente, são contra medidas que visam atacar a causa raíz dos problemas servidos pela organização. Porque, se o problema acaba, a ONG deixa de ter razão para existir. Temos que sempre ter cuidado com trabalho assitencialista e ideias universalistas rasteiras. O negócio e o batido “ensinar a pescar e não dar o peixe”…
October 29th, 2005 at 11:14 am
Olha, com relação ao planejamento familiar existem várias ONG`s que lidam principalmente com esse assunto.
De resto, acho sempre perigoso misturar o Estado com religião e mesmo colocar a religião como alternativa para fugir à pobreza. As pessoas deveriam ter direito a fugir da pobreza independentemente da religião que adotem.
October 29th, 2005 at 1:40 pm
Daniel, a medida nao envolvia religiao. Era so baseada numa ideia tradicional, que nada tinha de religiosa: o aluno morar na mesma “casa” que o professor por alguns anos. Mas, na tradicao indiana e muculmana, esta era a maneira como as pessoas eram ensinadas… So por este motivo, se reclamou muito.
November 1st, 2005 at 8:13 am
Absolutamente, Ram. As premissas foram corretas mas a conclusão foi errada. Em suma: o objetivo de toda ONG deve ser DEIXAR DE EXISTIR. Ou ao menos mudar de região, quando o problema estiver, não digo resolvido, encaminhado.