DOIS ÁLBUNS, UM VEREDITO
Esta semana, seguindo sugestão de um amigo brasileiro daqui, re-ouvi Rubber Soul, álbum-marco dos Beatles. Não vou criticar o Rubber Soul, nem falar dele. Mas vou dizer que é uma coisa interessante como funciona a nossa memória musical. Depois de tanto tempo sem ouvi-lo, o álbum me soou diferente. Intenso e melancolico, estranho. Nunca foi dos meus álbuns prediletos dos Fab Four. Mas, a minha memória dele era completamente outra. Quando pensava no Rubber Soul, lembrava a imagem de John Lennon na capa de Help!, que realmente não tem nada a ver nem com a capa deste disco, nem com o som dele. Mas era minha imagem para o disco. É bem parecido com como julgamos o mundo, ou melhor, como fingimos que entendemos a vida.
Imaginamos que todos os processos que acontecem a nossa volta são ordenados, causas e efeitos, tudo muito claro. Até nos metemos a imaginar que o que está por trás da imagem é compreensível. Mas no fundo tudo é caos. As imagens não são todas falsas, simplesmente porque são imagens, ou seja imperfeições. Retratos imperfeitos. Assim como o retrato que todo mundo faz de um gênio musical, para que se aceite que ele seja um gênio. Ninguém pode imaginar um homem ordinário, desligado, atarantado, como sendo um gênio. Não sem as nuances, o cálculo. Ninguem pode imaginar um gênio por acidente. Mas John Lennon é um deles. E quem quiser ouvir uma entrevista dele, cândida, amarga e ao mesmo tempo reveladora, ouça aqui. Definitivamente um gênio musical, definitivamente um homem comum e incomum, um acidente humano.
Lennon diz nas entrelinhas que o mundo cansa. Que sociedade cansa. Que impressões, criar, tudo cansa. Criar é um prazer quando se tem liberdade. Amarrado a esquemas, pode se tornar frustrante. Ao mesmo tempo em liberdade absoluta, ninguém cria. Não há necessidade para se criar nada. Somente com restrições, as famosas boundaries, os desejos, as imagens, vem o ato de criar. A dor de criar. A opção é procriar e morrer. É neste sentido que a vida é caos, ilusória.
Num outro sentido ela é real. Naquele em que estamos confortáveis, satisfeitos e amando. E para isso, uma resposta de Paul, de outro álbum, adivinhem qual, vem ao resgate, uma resposta simplista, reducionista, absurda, e portanto maravilhosa, e que é odiada por todos porque parece monótona, quase diz que a vida é tédio: “in the end, the love you take is equal to the love you make”. Mas acredite, não é. Fazer amor, especialmente para si mesmo, é tarefa árdua, instigante, uma aventura. E começa por se sair da toca, onde todos nos escondemos para evitar o olhar de nós para nós mesmos… A reprovação em vida do mar de tédio em que podemos transformar o dia-a-dia.
Portanto, give yourself something.
PS: Para quem imagina Lennon, herói, respondo que não me importo com este ou aquele julgamento de sua persona. Afinal, ele mesmo diz que eram tremendamente calculistas, e que fizeram de tudo para chegar ao topo. Com competência, mas em algum lugar no caminho, perderam a graça de fazer o que faziam. Continuaram fazendo com extrema competência, com genialidade nos melhores momentos. Mas sem a graça. Como você, indo para o seu trabalho repetitivo, cansativo e sem perspectivas… Ou seja, it’s not there duh!
December 13th, 2005 at 5:10 am
” Imaginamos que todos os processos que acontecem a nossa volta são ordenados, causas e efeitos, tudo muito claro. Até nos metemos a imaginar que o que está por trás da imagem é compreensível. Mas no fundo tudo é caos. As imagens não são todas falsas, simplesmente porque são imagens, ou seja imperfeições. Retratos imperfeitos. ”
Nunca imaginei que você fosse kiantiano, mas essa passagem é Kant em estado bruto!