UM SORRISO

Um sorriso de um homem que sofreu é a essência destilada da felicidade. O sorriso que surge depois de toda sorte de fracassos, perdas e derrotas é um sorriso talhado pela experiência, é um sorriso que compreende a preciosa delicadeza de um bom momento, de uma sensação de paz. O sorriso de um sobrevivente vale mil sorrisos de um vencendor. Uma lágrima de um vencender valém os rios de lágrimas de dor da tristeza.

O esforço com que se chega a um estado de espírito é que amadurece o sentimento, que encorpa as sensações. Emoções assim como palavras podem ser futéis quando desacompanhadas de todo o árduo caminho a se percorrer na vida. A vida é sim árdua. Desejos inacabados, promessas desfeitas, desencontros, morte. Ao mesmo tempo, somos homens justamente na nossa capacidade de encontrar a paz frente ao desafio de viver.

Uma estrofe de alguém que sente valem mil códices de engenheiros das palavras. Tudo que vale a pena na vida se incorpora em um arrepio. Aquilo que te arrepia, seja uma música, seja uma emoção conquistada após uma busca intensa, pois sim, aquilo que te arrepia é onde se resume tudo que valeu a pena na sua vida. O arrepio, o rush da adrenalina percorrendo o corpo, a falta de ar, lágrimas, gargalhadas, são todos expressões deste estado mais elevado de viver.

Eu proclamo, triste daquele que não encontra em vida, nem paz, nem sofrimento, nem arrepio. Pois não está vivo. Quem vive, tem direito, dever, presença garantida nesta valsa de choques e confetes. Por isso, quem vive acaba sofrendo. Mas quem sofre e fica por isso mesmo, desiste, se esconde, envelhece, “amadurece”, a estes a vida nada representa. Aqueles que guardam memórias, se apegam a história, se enfurnam em um minuto morto, simplesmente veêm a vida passar como um sequência de números que leva a um último suspiro.

Os riffs de abertura de uma música, os lábios da minha linda, o sol batendo na pele as 9 da manhã de um dia gelado, gelado, me causam arrepios. Me causam uma falta de ar quase instantânea. Os olhos de um mestre iluminado me arrepiam. As últimas notas da Heróica de Bethoven me deixam em prantos. O cartão que minha mãe enviou ano passado trazem lágrimas aos olhos. A tristeza de alguém, de qualquer um, que eu sinta que está triste, me corta como uma faca. Oh, diz você. Mas isto é vida.

Ausência de memórias, esqueçer nomes, mas lembrar de sorrisos. Voar por aí. Se acidentar, perder, esfaçelar, e montar tudo de novo. Juntar a areia e reconstruir o castelo, pelo simples prazer de fazer isso. A incerteza. A incerteza me choca. E me salva. Graças a Deus o mundo é incerto. Mesmo que de nove em dez vezes isso tenha rasgado minha sanidade, meus “pensamentos”, minha série de conclusões sobre próximos passos e caminhos. Mas basta descobrir uma voz que não tinha ouvido antes, um toque que não tinha sentido antes, um abraço de amigo que não tenha acontecido antes, uma música na última trilha de um cd desconhecido, que toda a incerteza se justifica. Passa a ser essencial!

Sem incerteza, todos violões seriam iguais e as músicas monótonas. Os beijos amargos, e as noites quentes de amor e paixão idênticas. As perdas seriam insuperáveis, e a importância de todas as coisas seriam exageradas. O homem se mataria no primeiro minuto. No primeiro. Afinal, como viver sem incerteza, se você desocobre uma certeza que não quer? A todo dia agradeço aos dados de Deus, aos genes da física quântica, por me garantirem uma vida eterna, renovável, despreendida.

Pois então, comemore um sorriso de um homem como se comemora uma copa do mundo. De todos os destinos possíveis, de tudo que poderia dar errado, ali está, infatigável, presente, iluminado. Este sorriso, de um homem é um dos maiores tesouros da vida. E todas aquelas coisas a que damos importância desproporcional são meras trilhas entre as milhares de trilhas que levam ao mesmo destino.

One Response to “UM SORRISO”

  1. Franz Says:

    :)

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