PURITANISMO INFANTIL
Temos um fenômeno no Brasil que acho muito curioso. No meio acadêmico, em departamentos de universidades de ponta brasileira, muitos professores instauram regras que proíbem os acadêmicos de colaborarem com a indústria porque defendem que “a pesquisa deve ser pura”. Já percebi que este fenômeno não se restringe ao meio acadêmico. Acontece também na literatura, quando dizem por aí que a “literatura deve ser pura”, deve ter conteúdo “teórico”. Acontece na música. Já ouvi até dizerem que “bom é o samba puro”. E acontece até em gastronomia, onde ouço colegas me dizerem que o bom vinho é o “puro sangue francês”.
No caso do meio acadêmico, o que acontece é que esta mentalidade tacanha, defendida em geral por professores jovens e sem muita exposição internacional, acaba reduzindo os recursos do próprio departamento e no longo prazo enfraquecendo a universidade. Pior, resulta em produzir uma pesquisa de qualidade pior. Me surpreende que tais professores nunca se deêm conta que empresas como a Google, que surgiu a partir de uma grande idéia acadêmica aplicada a uma necessidade real, só surgem em um campus que permite colaborações maciças entre indústria e academia. Grandes idéias vieram de colaborações entre Berkeley e HP, Berkeley e IBM, Berkeley e Sun, e tantas outras centenas de empresas. Resultaram até em papers teóricos que marcaram época na minha área.
Claro que este tipo de pensamento não passa na cabeça de muitos de nossas experts, muitos presos a dogmas antiquados. O que me deixa mais triste é que estes dogmas não advém de uma crença científica, mas muitas vezes tem origem em crenças políticas. Especificamente crenças políticas atrasadas, que vislumbram em qualquer recurso vindo de uma atividade industrial como sendo o “mau capital”, enquanto que dinheiro que cai como uma imprevisível goteira mas que venha de lamber as mãos dos burocratas do governo é o néctar dos Deuses.
Outra coisa que me irrita, tanto no meio acadêmico como nestes outros exemplos que eu dei, é a irrealidade do que defendem. Num país como no Brasil, as colaborações entre academia e indústrias devem ser fortes mesmo, mesmo que resultem talvez em pesquisas teóricas mais fracas. Até porque em pouquíssimos campos, o Brasil faz algo relevante na teoria pura. Não temos ainda o know-how, as bibliotecas necessárias e as pessoas formadas necessárias.
Pior, a maior parte das teorias interessantes em engenharia surgem da necessidade de se entender certos problemas práticos. Neste sentindo, colaborar com a indústria abre portas para novas idéias, para desenvolvimento do país, e para a formação de um aluno mais completo. E digo mais, abre as portas de uma pós graduação até para os muitos alunos que fogem para a indústria com medo da situação de (falta de) empregos.
Existem algumas universidades onde começam a se observar um pouco mais movimentação neste sentido. Mas na maioria dos campus a realidade é outra. Falta ao jovem brasileiro, aos professores jovens, muitas vezes o contato com alguém que lhes diga que é ok ser diferente, pensar arejado, e tentar idéias novas. O dogmatismo fracassado da geração passada ainda domina a minha geração de pessoas, onde poucos se comprometem a mudanças necessárias se quisermos dar um futuro mais empolgante ao nosso país.
A discussão ainda gera em torno da “pureza”, e não em como gerar recursos independentes para se equipar um laboratório ou para se conduzir pesquisa de ponta que seja utilizável no médio prazo. Ou ainda em como conseguir recursos para se aumentar o número de alunos de pós-graduação sendo formados. A maioria dos professores brasileiros só aceita dinheiro da indústria quando estes vem a sua porta “implorando” por uma colaboração. Para a indústria nacional que necessita de pesquisa muitas vezes saí mais barato e melhor contrar um expert internacional do que contribuir dinheiro para projetos de um professor inexperiente. Portanto, fica estabelecido o fim de uma parceria que seria rentável para os dois lados.
A mesma coisa acontece no debate político brasileiro, onde falta pragmatismo e abundam teorias conspiratórias e dogmatismo filosófico do século passado. A mesmíssima coisa acontece em quase tudo que se relaciona ao nosso país. Especialmente entre os jovens que se enquadram perfeitamente na juventude de 64. Isto vivendo em pleno 2005. Ao invés de dinamismo e pragmatismo com um pouco de ideologia, sobra sedentarismo intelectual com doses maciças de ideolgia e uma posição estática e passiva perante a vida e a sociedade. Este é um mal que diferencia o que observo na sociedade brasileira de classe média e na sociedade indiana de classe média. Talvez explique porque o surto empreendedor tem dado mais certo na Índia que no Brasil.
De qualquer maneira, se queremos mudar a nossa vida para melhor, a melhor coisa é deixar o puritanismo infantil de lado, e se focar em objetivos construtivos e concretos, dentro do possível. É bom sonhar. Muito bom. Mas sonhar sem realizar, ficando a deriva do que pode ser feito de proveitável é perda de tempo, é desperdício. E como temos tão pouco no Brasil para desperdiçar, que tal se usarmos o que está disponível eficientemente?
PS: Me lembro agora que até em blogs leio estes surtos de puritanismo messiânico.
PS2: Quando apresento minha tese de mestrado em seminários no Brasil, muitos professores ficam meio sem palavras quando descobrem que o tal trabalho teórico e aplicado foi todo feito dentro de uma empresa onde eu estava trabalhando. “Como? Ah, lá nos EUA é outra coisa..”. O sentimento nacional é sempre feito de desculpas…
PS3: Na analogia com o vinho, seria mais ou menos como se trabalhassem para impedir a existência de um vinho gostoso de 4 reais, que pudesse ser consumido por um número muito maior de pessoas, e ao mesmo tempo abrisse o caminho para alguns mais interessados - e com dindim para tal - explorar os vinhos franceses de alta qualidade ou quiça produzir um vinho que venha a competir com o melhor vinho francês. A mentalidade atual é “como estamos longe de produzir um vinho francês, é melhor ficar sentado sem produzir nada”.