DO QUE ME ENTEDIA NA BLOGOSFERA

Ando entediado com os textos na internet, feitos para internet. Dos textos em português, que são os que mais acompanho no mundo blogue. Não sou nenhuma autoridade no assunto. Mas sou leitor. E atualmente, no Brasil, todos dizem que querem ouvir a voz do leitor. Especialmente quem escreve na internet. Pois aqui ela está… Eu, leitor, ando cansado de ter que cavucar para descobrir alguma coisa que se pareça uma experiência pessoal. Todo mundo fala de tudo, menos daquilo que ele realmente poderia contribuir de original. Como assim?

Recebemos aqui em casa, por conta do Guilherme (valeu rapaz!), a “The Economist”, a “New Yorker”, a “Business Week” e a Wired Temos acesso por conta de Berkeley ao New York Times (inclusive o Select) e ao “The Nation”. Ninguém vai gastar tempo lendo tudo que aparece nestas publicações. Tem gente que gasta, e escreve sobre isso. É assim que parece boa parte dos textos online. Farrapos do que já foi apresentado em algum outro lugar, reinterpretação. Não descobertas… Basta fazer uma leitura diagonal que você prevê o que vai aparecer na maioria dos blogues e sites em português nos próximos 2 a 3 meses. Mas porque isso?

Porque todos se preocupam com reputação intelectual. Infelizmente, o leitor CAGA para isso. Vou usar um pouco de escatologia, pois a linguagem bonita não expressa o que eu penso sobre este assunto. Pois bem, ninguém quer mais saber da enésima lista de livros que você leu. Leitor já ta cansado de lista. É melhor para nós ir a lista dos BestSellers, porque ali é um ranking com a média dos leitores, e portanto estatisticamente é mais provável você ser parecido com alguém na média do que alguem que escreve num site qualquer. Quando procuramos na internet, posts sobre livros, sobre experiências com livros, é tão raro, é dureza. Polzonoff é honrosa exceção. E de graça, ele ainda nos conta porque Gilmore Girls pode ser algo divertido. Mas na média é tudo tão chato. Monocórdio. Não representa a experiência de quem leu, não tem um pouco de poesia na avaliação. É “uber-racional”, falando como os moderninhos. Admiro ao menos quem dá palpites objetivos como o Luis Eduardo Matta. Porque não fica se delongando muito, e rapidamente dá um histórico sobre o autor, e palpita. E pronto.

O problema dos textos que encontro, como leitor é este: são frios, sem objetividade, e sem experiências pessoais. Isso é raridade. Mas porque reclamo? Ora, porque você só descobre que um texto é ruim, depois que lê! Você gastou tempo com isso. Então qual a solução? Não ler mais… Foi o que fiz por alguns meses, para ver aonde eu iria parar com isso. Continuo com meus palpiteiros pessoais (aka amigos). Mas para autores online serve de alerta… Sou um leitor consciente, e provavelmente, o meu comportamento será o comportamento de muita gente que ainda não descobriu o tédio de ler o que se escreve na net brasileira.

Isso na literatura. Pior ainda em administração, empreendimentos, tecnologia. Infelizmente, raramente um verdadeiro profissional da área escreve sobre o assunto. A maioria dos posts são só uma regurgitação dos livros e autores que aparecem nas publicações que mencionei acima, e em um ou outro site bacana sobre o assunto (Portable MBA é um deles). O que precisamos nesta área, como leitor, são as experiências. É o mais importante. Você administra uma equipe? Escreva sobre sua experiência com isso. Você iniciou um empreendimento, e experimentou uma técnica que está em um livro, fale o que aconteceu. Senão, para a enésima resenha, no thanks. Porque não sabemos resenhar no Brasil. É tudo opinião. Para resenhar, o cara tem que ter muito experiência no assunto, tem que estudar a coisa a fundo. Eu mesmo me refreio de resenhar por conta disso. Só falo do que gosto, e digo porque gostei. Podem me cobrar isso.

Sou um leitor médio, mediano mesmo. Uma decepção para todos que esperam o intelectual de grande estirpe, que freqüenta um circuito da alta-arte. Porque arte não é algo elevado neste sentido. Para mim, arte não é para formar círculos de elite, ou para fazer parte de um circuito que permita alguém ter seguidores ou ser bem recebido por um colunista idiota do Globo. Para mim arte é algo pessoal. É o que diferencia de todas as outras atividades humanas. Se você quer ser um aristocrata, o seja. Mas não meta arte no meio disso. Almeje ganhar dinheiro, casar com fortuna ou algo assim. Senão se torne um puxa saco dos poderosos. Mas quando se diz representante do mundo do conhecimento, e você faz isso está disvirtuando. E infelizmente, é isso que muita gente boa tem feito, se rendendo as vaidades mais rasas. Tudo bem ser ambicioso e vaidoso, mas paralelamente, ao menos 10% do tempo faça algo para mim leitor, que seja original, da sua experiência.

As pessoas imaginam que eu vim a Berkeley por admirar os “Grandes Cientistas” ou porque eu queria entrar no topo do circuito acadêmico… O pior que na minha ingenuidade, eu vim a Berkeley porque estava a fim de aprender para valer. Estar com professores de ponta me ensinou a sempre ir buscar o conhecimento na fonte original, a remover os intermediários do meio do caminho. E mais, que podemos, e devemos aprender com a experiência dos outros. Eu já acreditava nisso. Estar em Berkeley, reinforçou isso. Claro que aqui está cheio de gente que quer galgar a escada social do mundo acadêmico… Muita gente. Gente que tem orgasmos porque fulano ou beltrano aceitou co-autorar um artigo com ele, não importando o assunto… Mas para o leitor médio, para o engenheiro médio, isso não importa. O tempo apaga.

Só para terminar, queria que mais gente escrevesse sobre viagens como o Rafael Lima faz. As vezes ele escreve textos muito longos, mas sempre tem muitas experiências ali. Vale a pena. A maioria dos textos de viagem que encontro parecem que almejam convencer o leitor que aquilo ali foi uma grande e importante viagem, única, nunca antes feita… Que perda de tempo! Eu considero textos juvenis. Isto quando não são deslumbrados… Mas vou incluir aqui um outro autor de textos de viagem que gostei muito: o Eduardo Carvalho. Seus textos sobre viajar pelo Brasil me ensinaram muito mais sobre o país, do que toda análise antropofágica dos nossos analistas de viagem…

A moda da burocracia acertou em cheio este pessoal da net… Um dia se eles quiserem leitores mesmo, ao invés de tietes que querem um naco dos contatos com meia dúzia de jornalistas bem remunerados, vão ter que ser menos burocratas e mais dedicados a experiências, amores, aos encantos do seu cotidiano… O Texto fica não porque sou o melhor crítico ou porque alguém irá me ouvir. Mas porque me decepcionei bastante com a direção geral que o mundo online brasileiro tomou, se tornando somente um reflexo de tudo que anda tão ruim nas pubnlicações nacionais. Só que feitas por pessoas mais jovens… E infelizmente, você tem que ler texto a texto para decidir isso. Ou seja, tempo gasto! Mas para vocês não acharem que foi só meter o pau, tenho lido muito a Revista Piauí. Tem online, e é ótima.

3 Responses to “DO QUE ME ENTEDIA NA BLOGOSFERA”

  1. alex castro Says:

    hmmm… lê meus textos sobre cuba, então… estou fazendo um ebook com eles… agora fiquei curioso pra saber o que acharia…

  2. Marcelo Says:

    Ja tinha lido esse seu post e gostei bastante. Reflete o que eu ja vinha percebendo tb. E como agora eu uso o Google Reader ficou mais facil ver varios blogs em pouco tempo. E e sempre a mesma coisa, muitas listas disso e daquilo mas pouca gente falando das suas experiencias pessoais. eu preciso voltar a ler mais livros e deixar os blogs um pouco de lado.

    Valeu!

  3. osrevni Says:

    Concordo plenamente quando você diz que os posts dos blogs brasileiros são quase clippings da imprensa internacional… Concordo mais ainda quando você reclama das insuportáveis listas de “livros lidos nesta semana” e por aí vai. Mas blog é liberdade, cada um faz o que bem entender, e realmente, tem gente fazendo de tudo por aí! Basta circular.

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