COMPRA DE INTELECTUALIDADE CHINFRIM

Eu ando lendo por aí um descabido ceticismo a qualquer coisa que não venha corroborado por um racionalismo rasteiro. Racionalismo rasteiro é aquele que não abre espaço para experiência alguma, que não esteja no campo imediato do racionalista.

Há uma diferença entre uma pessoa racionalista extremada, e uma pessoa cética. O cético está aberto a novas experiências. Procurará uma explicação ou uma investigação séria sobre aquilo que não compreende muito bem. O Racionalista, por outro lado elimina do campo de experiência tudo aquilo para o qual não tem A PRIORI uma explicação racional.

Por exemplo. Uma das questões debatidas pelos racionalistas intelectualóides é a validade de certas experiências obtidas através de práticas diversas, do brainstorming (que hoje aceitam pois o fazem de vez em quando), a meditação. Ora, qualquer um que tenha um interesse sério em ciência e biologia sabe que somente agora começamos a destrinchar a ponta do iceberg em relação ao que está acontecendo no nosso sistema neurológico. Inclusive as técnicas ainda são tão rudimentares que sabemos somente estatisticamente certas reações dos neurônios, e ainda assim em âmbito local. Para o racionalista, isto é algo dado como certo, apesar de grandes neurologistas computacionais de Berkeley estarem ainda incertos do funcionamento das partes mais complexas e interessantes do cérebro.

Uma questão atualíssima, e sendo estudada em Harvard, Berkeley e Stanford, trata do que acontece com a energia do organismo sujeita a certas práticas. Por exemplo, a meditação em compaixão, o que faz? No caso a resposta é bastante curiosa e por enquanto rudimentar: ativa uma área do nosso cérebro ligada comumente a criatividade, e a profundas experiências emocionais, e até “místicas”. Ora, se a prática é feita a milênios baseada em ajustes experimentais (assim como o papel é impresso há seculos passando por vários ajustes experimentais, mesmo quando ninguém entendia o que era um átomo!), não se torna inválida, só porque algum monge optou por apresentar a idéia em uma linguagem antiquada.

Estes mesmos racionalistas são os primeiros a embarcarem em todo tipo de modismo que reinforce suas próprias posições, por mais desiquilibradas que sejam. Uma observação: um racionalista que hoje usa Einstein indiscriminadamente para justificar o rigor científico (que certamente deve existir e continuará a existir, mas ciência não explica nem metade de tudo ainda), esquece que há um século ele era escorraçado pelo establishment racionalista, sob a premissa que suas idéias “não poderiam se comprovar na prática”. Foi a sorte que trouxe a paz para Einstein.

O perigo do racionalista extremado, aquele que ainda acha que estamos presos na época iluminsta - quando a igreja detinha boa parte do poder - não é o que faz consigo mesmo. Se deseja destruir sua própria vida é um problema seu. Mas é quando caem sob sua tutela jovens que ainda poderiam vivenciar muitas experiências diferentes. Estes, por desejo de aceitação, perigam tornar suas vidas de uma pobreza de dar dó. A beleza da vida está na incerteza, em todas aquelas coisas para as quais os saltos intuitivos nos levam.

Mesmo a intuição, o insight, não começam em nenhum processo racional. Um prêmio Noblel la de Berkeley, de Física, contou uma vez como fez sua principal contribuição teórica. Um dia estava andando num parque, e sentou num banco para descansar. De repente, sabia a solução do problema que estava buscando fazia um tempo. Infelizmente não sabia como chegar para aquela solução. Sabia a resposta, mas não sabia os passos racionais que levavam a ela. Passou vários anos até encontrar os passos e poder demonstrar aos colegas a veracidade do que dizia.

A lógica de primeira e segunda ordem tem enorme importância. Mas não devem jamais ser a única forma de pensamento a que nos atemos, porque rejeitamos então uma série de experiências, descobertas e curiosidades que não cabem inicialmente nesta lógica. Racionalismo e materialismo estão intimamente ligados. Porque a única coisa que é mensurável com razoável precisão são algumas propriedades da matéria. Mas até isto está sob cheque quando começamos o estudo de partículas, sub partículas, fotons, etc. Por exemplo, um experimento alemão conseguiu “teleportar” um foton. O que isto quer dizer? Até mesmo a física do trem bala japonês já foi motivo de escárnio racionalista, até que algum cientista corajoso foi contra a onda…

Portanto não venda sua vida barato para crença alguma. Experimente por conta própria, e vá atrás daquilo que lhe desperta a curiosidade, ainda mais se for alguma coisa para a qual não parecemos ter respostas imediatas. É assim que foi construída a bagagem de conhecimento da humanidade, que não é feita de passos racionais e planejados. Pelo contrário, nossa história, cultura e conhecimento é resultado da interação de muitas idéias, experiências e saltos intuitivos, e da busca de pessoas corajosas pela verdade por trás das coisas. Não fosse assim, como é que alguns dos grandes cientistas da história da humanidade, foram também homens profundamente místicos?

PS: Para não ir lá para trás, basta uma conversa com grnades cientistas de Berkeley com mais de 40 a 50 anos, e todos parecem estar vivenciando uma vida interior muito mais rica do que gostariam os racionalistas extremistas.

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