SUMIÇO EM SINGAPURA

Nosso intrépido blogueiro, engenheiro, e cronista Rafael Lima anda por Singapura, ou andava. Reapareceu, e mandou o que para mim está entre as dez melhores descrições em português que já li de uma cidade. Vou reproduzir aqui, sem pedir permissão prévia, porque blogue é assim - quando fura notícia, é sempre entre amigos. Fica como presente para o aniversário do “Na Cara do Gol” (5 anos de serviços prestados - daqui a pouco você sai em condicional, ufa!):

Singapura continua sendo uma mistura de deslumbre e asco para mim, a incrível quantidade de opções de eletrônicos (visitamos a Sim Lim square, 5 andares de lojas só de produtos eletrônicos, tudo que é tipo de celular, câmera, periférico e tocador de MP3 que se imagine), comida (jantamos num restaurante chamado No Signboard Seafood, no meio do Gaylin district, que é sem tirar nem pôr a versão de Singapura para o Sentaí, mais conhecido como Rei da Lagosta, na central do Brasil), etnias e culturas se espremendo numa cidade organizada, limpa e atulhada demais para ser uma boa opção de vida. Pra não falar no tempo, já que dessa vez o clima tinha passado da fase chove todo dia para a fase chove o dia todo…

Assim como São Paulo, Singapura não pode parar — e nem a poluição, nem o trânsito pesado das horas de rush, nem os pedágios são capazes de reduzir o ritmo de uma cidade que não parece dormir: as lojas fecham diariamente 9 da noite e um dia por mês ficam abertas até meia-noite, isso porque abrem de domingo a domingo! Aqui não chegou ainda esse esboço de consciência ecológica que faz os atendentes de Perth ou Berkeley perguntarem sevocê quer uma sacola plástica quando vêem que já tem uma ou o item é pequeno: o nome do jogo é eficiência e ninguém poupa facilitar a vida do freguês. Não espanta que os excessos sejam vistos normalmente como progresso e naturalmente como parte do bem estar. Outro dia vi no 60 minutes uma família na Tasmânia incentivando a derrubada de árvores já que o turismo ecológico não estaria dando conta da atividade econômica e meu amigo de Saint Etienne me mostrou uma canção que começava com “ecute moi, ecologistes…” e daí em diante ia elogiando o perfume do gás carbônico e a beleza dos rios poluídos: não era troça, era a constatação de que aqueles dejetos eram prova de vitalidade econômica e progresso para a cidade. Os cidadão de Singapura também dão boas vindas ao tráfico pesado e aglomeração pelo mesmo motivo.

Singapura é tão pequena que não tem aeroporto doméstico. Nos hotéis de Las Vegas um canal interno ensina os hóspedes os diversos jogos de cartas; nos de Singapura um canal mostra e dá o endereço das principais lojas e shoppings da cidade, além de atrações turísticas como o safari noturno no zoológico e o museu onde ficava o principal campo de concentração japonês.

No vôo de volta vim assistindo um filme de Bollywood sensacional, chamado Dhoom 2, meio na linha Thomas Crown: um ladrão charmoso executa roubos espetaculares e é perseguido pela polícia, composta de um tira bonitão e um paspalho que faz o papel cômico. Tem ainda uma policial desejada pelos dois tiras e uma segunda atriz que é plantada como assaltante para fazer amizade como o ladrão e atuar como agente dupla. Todos os triângulos amorosos são tematizados por números de dança e música e as atrizes estão entre as mulheres mais bonitas que eu já vi. O mais genial é que apesar dacandidata a ladra mencionar que gostaria de partir para uma carreira de crimes em Amsterdam-Australia-America (Australia?), o primeiro lugar para onde eles viajam começa com B, exatamente: Brasil, a gloriosa cidade do Rio de Janeiro, sim, um autêntico bollywood passado no Rio. Sensacional ver a versão dos indianos para o Rio folclórico, o Rio de foto do Mario Testino.

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