ALGUMAS OBSERVAÇÕES INTERESSANTES
Este fim de semana prolongado fui a Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em companhia da Thaís. A família dela mora lá, e fomos a um casamento de um primo que mora em São Paulo. Já fui lá diversas vezes e sempre me impressiona como a cidade de Campo Grande cresce a olhos vistos. Claro que a cidade tem referências culturais muito menores que o Rio de Janeiro, só para ficar no exemplo óbvio. Mas isto não impede de ter shows de violão clássico, de construirem uma nova sala para música clássica, e um festival anual de comidas internacionais.
Uma característica peculiar de Campo Grande: a cidade é formada por muitos imigrantes, especialmente japoneses e turcos. Onde tem japonês, a coisa parece funcionar melhor. Outra coisa que eu reparei: naquela cidade que eu imaginava um matão (pense Mato Grosso do Sul, o que você imagina?), as pessoas são muito educadas, e falam um português bem melhor que o que ando encontrando na rua no Rio. Não sei se é sinal de que a educação pública é um pouco melhor (lembro que numa lista de melhores escolas do país, CG aparecia ali com uma escola), ou é o fato que a cidade tem espaço para crescer, apesar de já ter 1.5 milhões de habitantes.
Me surpreendi também com o sem número de organizações esotéricas, místicas e filosóficas na cidade. Fui visitar alguns destes lugares, e tive conversas agradabilíssimas. Chico Xavier dizia que o centro espiritual do Brasil é o Centro-Oeste, por motivos esotéricos. Pode até ser. O Brasil parece diferente em alguns lugares. Você vai nestas cidades e sai com uma sensação de otimismo, de possibilidades. Também imaginem só: alugar uma loja ali em Campo Grande custa cerca de 300 reais por mês. Tudo bem, não é Rio de Janeiro com seu imenso público consumidor. Em compensação você pode arriscar a vontade, sem medo de errar, não é mesmo?
Depois de morar tantos anos nos EUA, descobri o valor daquelas cidades que estão para ser construídas. Lá, em geral, elas crescem ao redor de uma boa universidade. Foi assim em Austin, Texas. Quando fui lá, a cidade tinha cerca de 600 mil habitantes. Hoje tem mais de 1.5 milhões, e as cidades próximas cresceram assutadoramente. A cidade virou polo tecnológico e polo de cultura. Figura consistentemente entre as melhores cidades para viver. Para chegar lá, o governo estadual e federal ofereceu incentivos, e incrementou a universidade do Texas, um processo que levou cerca de 5, 6 anos.
Mas quem foi lá, pode construir as coisas a sua maneira. Não só as residências. Mas você pode ser talvez o primeiro cara a pensar em algum tipo de negócio, você pode abrir até mesmo uma sociedade de classe (sei lá, sociedade de tecnólogos de Austin). E o melhor de tudo: você não precisa combater poder estabelecido ou mesmo o peso da tradição. O lado ruim é que você pode ficar meio isolado, mas se a aposta der certo… Conheci varios empreendedores em Austin que não teriam tido metade do sucesso se ficassem no Silicon Valley. Porque em Austin puderam experimentar, tudo era mais barato, e a universidade muito boa…
Esta é a sensação que tenho de Campo Grande, exceto que não vejo o investimento claro em educação. A cidade está cheia de jovens inteligentes, e empreendedores, como os primos da Thaís. Fervendo de potencial em um mercado virgem. Noves fora, é uma cidade para jovens, como Florianópolis está sendo, onde você ainda pode comprar um terreno, ainda consegue pagar para construir sua casa, e pequenas coisas do gênero. Mas a falta de investimento forte em tecnologia, especialmente na universidade, dificulta a expansão desta cidade…
Ainda assim, vou saborear minhas memórias daquela cidade, como por exemplo ir na Feira Central e curtir um Yakissoba maravilhoso em um dia friozinho, ou passar na padaria São Bento na volta de uma ida a Bonito, ou ainda uma ida ao turco para comer esfihas deliciosas e fresquinhas. Ou melhor ainda, comer alguns doces japoneses, enquanto o avô da Thaís recita sutras Budistas. Tudo em um ritmo bem mais lento que aquele de nossas metrópoles, com tempo de saborear um por do sol, e a vista bucólica do campo. Afinal, a cidade ainda é Campo Grande.
PS: Por algum motivo me lembrei da música “Casa no Campo”, do Zé Rodrix e Tavito, em uma bela interpretação da Elis Regina.
September 11th, 2007 at 6:58 am
Ram, quando voce voltou a morar no Brasil voce teve algum choque cultural invertido? Muitas pessoas que voltam dizem que passam por essa experiencia.
September 13th, 2007 at 8:17 am
Eu ainda nao voltei 100%. Mas estou tendo um choque sim. Infelizmente, descobri o que e profissionalismo… Nao estou sendo arrogante, mas constatando um fato. Tantas dores de cabeca que temos, que nao sao nossa responsabilidade, sao preocupacoes que nao deveriamos ter.