OS APÓSTOLOS DO FUTURO

Atualmente está na moda no Brasil, especialmente entre os jovens interneteiros, fazer previsões sobre o futuro, e quando acertadas, contabilizar isto como sinal de que alguém é visionário. Alguns conhecidos meus inclusive me cobraram porque não prevejo o fim disso ou daquilo, ainda mais estando no epicentro da revolução tecnológica.

Ora, é bastante simples: qual é a vantagem de dizer que isto ou aquilo vai acontecer baseado em mera observação de tendências? Este tipo de previsão é tão boa quanto a de videntes que todo ano registram no cartório que determinado evento irá acontecer, e ele realmente acontece. Um mais esperto registra todas as possibilidades…

Estando em Berkeley aprendi que o verdadeiro visionário parte de uma premissa muito diferente: o que interessa a ele são idéias, e a execução delas. Neste campo, tenho orgulho de poder dizer que contribuo bastante na minha área, tentando ao menos executar naquelas idéias que vejo que podem ter um impacto prático. Talvez nenhuma delas seja futuristica ou visionária. Algumas delas podem ate ter surgido de um delírio assim. Mas no fim das contas, quem decide o futuro é o tempo… É uma decisão coletiva da sociedade, da qual nós temos participação negligível e importante.

Vocês me perguntam: seriam os fundadores da Google visionários? Tendo conversado com eles durante uma palestra, posso dizer que eles mesmo dizem que são, mas não no sentido megalomaníaco em que a mídia os trata. Foram visionários em criar um conjunto de servidores que pudesse amelhar o dobro de páginas que o Yahoo fazia na época… Daí, o restante foram incorporações de várias idéias que já existiam em outras empresas (inclusive o AdSense, uma acquisição da Google). Os caras são geniais? Certamente. O que de visionário deles não foi ter feito previsões sobre o “fim da Yahoo” ou disso ou daquilo, ou mesmo da supremacia da web sobre outros meios de comunicação… Simplesmente foi ter a idéia - que inclusive foi um feito com contribuição de outros pesquisadores imediatos, e muitos que vem lá de longe (inclusive o tal do Euler).

Por isso que eu digo e repito: ser visionário, nos moldes do que se propala no Brasil, não me interessa. Eu poderia dizer aqui que a ferramenta X vai dominar o mundo (e tenho muitos candidatos), mas qual o verdadeiro valor disso? Pelo contrário, me interessam as boas idéias. Mesmo as não visionárias, que não declaram rupturas com ninguém… Na verdade são estas as idéias que na maioria das vezes criam contribuições duradouras. Então, se você acha que pode bolar alguma coisa que ache legal e que as pessoas irão usar, quem sabe não vai ter sucesso? Pode não ter também. Timing nem sempre é uma opção como muitos afirmam. Senão teremos que remover os nomes de muitos dos grandes cientistas da lista de grandes contribuições para humanidade.

E lhes garanto mais uma coisa: qualquer pessoa que realmente tem uma opinião de peso na sociedade, ou que pode financiar mudanças, não tem interesse em Mães Dinahs de segunda mão. Interessa muito mais a eles, pessoas sérias, capazes de fundamentar bem suas idéias, e realizar pequenas transformações, que ao longo do tempo podem se tornar uma grande contribuição. Ou alguém imaginava que fazer um programinha para um microchip na década de 80 iria ser uma indústria de bilhões?

Se você quer ser reconhecido como visionário em determinado campo, primeiro deve buscar fazer contribuições naquele campo, para entender como as coisas funcionam… É meio como aquelas estórias que ouvimos do dono de empresa que põe o filho para começar no chão de fábrica. Mas de experiência pessoal posso lhes garantir: é muito mais divertido, a vida fica muito melhor, quando você realiza sua criatividade, do que tentando prever o futuro da criatividade dos outros…

One Response to “OS APÓSTOLOS DO FUTURO”

  1. Cristina Says:

    Maravilhoso. Apesar de não ser uma pessoa com uma opinião de peso na sociedade nem uma Mãe Dinah, concordo com você. Os blogs estão substituindo a filosofia, já reparou? Nada contra os devaneios, mas essa valorização excessiva da novidade só porque é novidade enche o saco.

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